Sermão sobre a correção e a educação dos filhos

Por Rev. Pe. Javier Olivera Ravasi

Tradução, notas e grifos de Airton Vieira

 

[12 de jun. 2018 (Extraído do Evangelho de S. Lucas, XV, 1-10)]

 

No Evangelho que recém acabamos de ouvir, Nosso Senhor conta uma parábola, como sempre, como todas as parábolas, com exagerações. Todas as parábolas de Nosso Senhor são hipérboles, são exagerações. Na realidade, nunca um pastor deixa 99 ovelhas para simplesmente ir buscar uma, porque não é negócio. Nunca uma pessoa revira toda a casa até que encontre uma moeda de cinco centavos, e depois faz festa e se alegra. Isso é uma hipérbole, por isso mesmo Nosso Senhor quando fala, tanto aos fariseus como aos discípulos, exagera, para que, dando-lhes o mais, ao menos alguém fique com o mínimo, o elementar.

E nesta parábola se fala das moedas e das ovelhas, aquelas que alguém pode chegar a perder. Eu gostaria de aplicar este texto hiperbólico, parabólico, de Nosso Senhor, a estas moedas, ou a estas ovelhas que todo pai e toda mãe podem chegar a ter em sua própria casa, que são os próprios filhos. Ainda que esse Evangelho se pudesse aplicar com muitíssimos outros sentidos (ao pecador que se arrepende e torna à casa paterna…), penso que seria bom aplicá-lo a isto. Peço que ninguém se sinta ofendido, mas como diz um dito espanhol: al que le quepa el sayo que se lo ponga[1]. E é por isso que o sacerdote tem de pregar sobre estes temas, porque uma primeira questão que alguém poderia colocar-se é: “O que tem a ver um Padre pregar sobre a educação dos filhos?”. O mesmo poderia dizer alguém a respeito de um médico oncologista: “O que tem a ver este médico oncologista falando de câncer se nunca teve câncer?”. A Igreja é Mater et Magistra, é Mãe e Mestre, por isso tem experiência nestes temas. E a vida dos santos e a doutrina do cristianismo durante dois mil anos lhe dá um pouco de experiência independentemente ou não de que o pregador seja um educador.

O primeiro princípio que quero salientar é que um pai ou uma mãe se salva ou se condena segundo a educação que dá a seus filhos. Às vezes se escuta dizer por aí “Padre, Padre – aconteceu comigo mais de uma vez – que posso fazer? Meu filho já tem 25, 30 anos, se desviou do caminho… a verdade é que já não sei o que fazer, já não sei… não sei o que posso fazer…” “Nada. [Desculpe] senhor, estou perdendo tempo. Há que ser realista. O senhor lhe deu uma educação sólida quando era pequeno, ou o mandou a um colégio “católico” entre aspas? Então, neste instante não há mais nada a fazer. Simples. Porque se perdeu há tempos. Há um tempo para tudo, diz o livro dos Provérbios[2]. E o tempo especial [destinado] aos filhos é justamente quando ainda os têm em casa. Depois já não há mais tempo, por dura que seja a resposta (…). “Dá-me os primeiros oito anos de vida das crianças, que lhe dou [de presente] o resto”, disse S. Agostinho. É isto.

Os pais se salvam ou se condenam segundo a educação que dão a seus filhos, ainda que se tenha presente a obrigação dos pais de alimentá-los; isso, inclusive em relação aos maus pais. E Nosso Senhor também o disse: “Quem de vós, se um filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir um peixe, lhe dará uma serpente?”. Bom, eu lhes digo que há muitos pais que a seus filhos lhes dão pedras, e serpentes. Quem sabe, com a melhor das intenções… ou quem sabe com um pouco de ignorância. Porque, queiramos ou não, todos aqui somos filhos da modernidade. Não é esta uma obrigação a mais do pai ou da mãe: é a obrigação. Os pais são depositários e não donos das vidas de seus filhos. Daí que S. João Crisóstomo o diga: “Olhemos aos filhos como um depósito precioso, e velemos por eles com toda a solicitude possível”. E como são não donos, mas depositários da vida, sobretudo da vida da alma, de seus filhos, vão ter de dar conta desse depósito que receberam: “Que fizeste com esse único filho que te dei? Que fizeste com esses dez filhos que te dei? Que fizeste?!”. Uma das perguntas que me fará o Senhor no dia do juízo é esta.

Quais são as consequências de uma boa e de uma má educação? Há muito já se perguntavam os gregos. Com os meninos mais velhos, este ano, estamos lendo um diálogo de Platão chamado Menon, [em que se pergunta] se a virtude pode ou não se educar, pode ou não se transmitir aos outros. E a educação, claramente, não é um remédio que alguém nos dê. Alguém dispõe os meios – que o diga a comunidade maçônica: somos livres, certo? –, contudo, se não ponho essa armadura, se não disponho os meios, dificilmente então posso lograr que no dia de amanhã surja na família um herói, um santo ou um mártir. Diz a Escritura no livro do Deuteronômio, que os filhos serão o que forem os pais. Isso qualquer de vocês poderá comprovar: vejam como são as crianças, e saberão como são os pais. Simples. O filho é o reflexo de seus pais. Porque pelo fruto se conhece a árvore.

Este problema da educação vem da época dos primeiros cristãos. Um dos Padres da Igreja recém citado, São João Crisóstomo, dizia que já em sua época, século IV, os pais se ocupavam mais dos cavalos e das bestas de carga que de seus próprios filhos. Que belo costume tinham os espartanos, que quando uma criança ou um jovem delinquia, cometia um delito, castigava-se principalmente o pai, porque de algum modo era responsável pelo delito de seu filho.

E por que dizemos que é importante pregar estes temas? Porque se não são pregados, considerando-os como óbvios, acaba-se por esquecê-los. E como são esquecidos, acaba-se por não se praticar. E como… somos filhos do tempo presente, puderam nos meter [na mente] – puderam nos meter porque somos filhos deste ambiente – a ideologia nefasta da psicopedagogia moderna de que há de deixar a criança ser [o que é]. Já Rousseau dizia, em seu célebre livro Emílio, que as crianças nascem boas, porém a sociedade as corrompe. Vemos todos os dias nos noticiários: “Pobrezinho desta criança que roubou, matou… Mas há que entender o contexto, não? Ela nasceu no morro, tinha um pai que a maltratava, uma mãe que era uma alcoólatra, uma prostituta… bom, como então não irá terminar numa prisão, se todo o tempo esteve no morro?” Rousseau puro. Nascemos com uma má levedura, nascemos por um pecado que é o pecado original, e se eu o apago pelo batismo fica em mim a tendência, a forma pecatti, a cicatriz, e é por isso que os pais têm de tentar ajudar a que essa cicatriz seja sanada o mais rápido possível.

“Não! Tem de deixar que seja [o que é]… Como vou levantar a mão para uma criança?”… Até isto que pareceria uma coisa elementar, agora tenho de alegar com a Escritura: Provérbios XIII [24]: “O que despreza a vara odeia a seu filho, mas o que o ama o disciplina com diligência”. Sigo: “A necedade está ligada ao coração da criança – a criança é caprichosa por natureza! – mas a vara da disciplina a afastará dela” [XX, 15]; “A vara da disciplina e as palavras da repreensão dão sabedoria, mas o jovem abandonado à sua própria sorte envergonhará sua mãe.” [XXIX, 15]. Bom, para aqueles que [porventura] possam dizer que as palavras do Antigo Testamento são duras demais, citemos o texto de São Paulo aos Hebreus, capítulo 12 [6ss]: “Quem ama ao Senhor, o Senhor o corrige, e açoita a todos os filhos que acolhe. Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos.” Filhos bastardos! Claro, não se está falando aqui de se converter um pai em um espancador; eu sou a favor de que os animais não se extingam, desta forma não há que bater demais nas crianças, mas às vezes alguém pode chegar ao ponto de dizer, quase como um louco… uma criança que insulta sua mãe, e sua mãe não lhe dá uma pequena bofetada, ou algo mais, está lhe causando um dano. Provavelmente – me desculpem que esteja dizendo estas coisas – há que voltar novamente quase como às origens…

Qual é o modo de educar os filhos? A Igreja nos tem ensinado sempre, em distintos documentos. Em primeiro lugar, formar a Cristo nas almas: “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor” [Prov. IX, 10]. Falar-lhes do Céu, não ter medo de falar-lhes, inclusive, das penas do inferno. Claro, não é necessário gastar todo o tempo em uma educação castradora, mas aqueles que simplesmente dizem não a todo tipo de conversa sobre o castigo, o inferno – ou o que seja – terminam finalmente esquecendo-se de que se trata de uma realidade eterna. Ademais, Deus mesmo subscreveu em inumeráveis passagens da Escritura: “Desde sua infância, diz o pai Tobias a Tobit, lhe ensinei a temer a Deus e afastar-se de todo pecado” [Tob I, 9s]. Perguntaram a Santa Terezinha do Menino Jesus pelos pecados mortais que havia cometido. Ela, tocando em sua fronte, disse: “não tenho consciência de haver cometido um só pecado mortal em minha vida”. Seus pais, hoje canonizados, viviam no santo temor de Deus, e [tinham] horror por um pecado. A rainha Branca de Castela, mulher santa, mãe de São Luís rei, chegou a dizer-lhe: “Filho, te quero muito, mas antes preferiria ver-te morto a que cometesses um só pecado mortal”.

Como um pai, como uma mãe, tenta educar um filho para o Céu? Usando, armando, colocando essa armadura. E principalmente vigiando as ocasiões de pecado. Vou me fazer entender, vou dar-lhes um exemplo concreto: um pai tem que vigiar as amizades de seus filhos, os ambientes que frequenta. Não é suficiente dizer que o mandou jogar rugby, um esporte cavalheiresco, de homens [viris] etc., se depois, no que chamam de “terceiro tempo”, terminar sendo um desastre tudo isso; terá que pensar bem para onde o manda; porque logo terminam embebedando-se ou buscando más companhias, tendo más conversas, [por isso] acaba não tendo nenhum sentido, por mais heroico que seja esse esporte. Vigiar como fala, a roupa que usa, a música que escuta, as coisas que vê. Todos [nós], os maiores, passamos por esse período da adolescência. Período dificilíssimo, porque mudamos: hoje queremos uma coisa, amanhã queremos outra, e a grande tentação da adolescência para um homem ou para uma mulher, que por si mesmos são distintos por seu modo de ser, são os namoricos, as tentações contra a pureza, nos homens as imagens, na mulher a vaidade…

Se um pai ou uma mãe jogou a toalha, e diz: “Estou cansado, tenho 200 filhos, basta, tenho um montão de trabalho, não posso mais…”, estamos fritos. Porque não é que um pai ou uma mãe estejam fazendo essas coisas para causar dano à criança, ao contrário, [se trata de] um período em minha vida que tenho de esforçar-me ao máximo. E se tiver de perder uns trocados a mais ou uns trocados a menos… mas, [afinal] são meus filhos! Me salvo ou me condeno dependendo disso! E isso ocorre nos melhores ambientes, estou cansado de ver famílias boníssimas, boníssimas… passa o tempo… gente excelente, super comprometida, apostólica… vejam, façam um exame de consciência: [por]que de famílias excelentes, pode ser que depois os filhos lhes saiam mal… O que passou? Está certo, [é] a liberdade Padre… Sim, estamos de acordo, contudo muitas vezes encontramos famílias excelentes cujos filhos não as seguem. Aqui ocorreu algo. Aqui se rompeu o elo. Aqui não houve total dedicação. É verdade que pode haver mais de uma ovelha negra, normal, mas eu lhes posso nomear rapidamente várias famílias conhecidas que tinham uma boa família, gente de bem, [e que] não souberam transmitir a fé aos filhos, e a prática católica comprometida aos filhos: proibir que façam injustiças, que critiquem em público, ou inclusive em casa…

Isto [que] irei repetir me é tremendamente incômodo dizê-lo, porque repito mais de uma vez: não se pode deixar que nossos filhos namorem até que ao menos terminem o ensino médio. Porque são períodos claríssimos de perda de tempo, de perda de pureza, de queimar etapas.

A segunda coisa incômoda: o álcool. Alguém me dirá: “Bem, de fato… eu… para que vá se acostumando… e tome um pouquinho… até em casa com os pais, e tudo…”; lamentavelmente estão iniciando nisto um menino adolescente, que ainda não tem a mesotes, a medida para dizer se é bom, se é mal, o quanto… É como aqueles que dizem “Bom, há que iniciá-los em uma educação sexual completa, depois o garoto vai saber como se virar.”… Porque estou fomentando um vício a este jovem. Goste ou não goste, rapazes das melhores famílias… Bem, quem sabe… “Não, não, eu não faço nada com minha namorada”… sei lá o quê…; [mas] começou a beber aos 13 ou 14 anos… e com seus pais. Eu conheço mais de um caso. Chega aos 18 e, claro: “Um copo de cerveja não é nada, eu me aguento”. É um tema delicado? Sim, mas minha prudência exige que assim o fale; porque eu confesso. Ademais, há pais que por mais que gostem de seus filhos, não os corrigem nunca. Santo Alfonso diz que se um pai visse um de seus filhos cair em um poço e não soubesse nadar, e a única parte do corpo pela qual pudesse agarrá-lo fosse seus cabelos, que pai não os agarraria pelos cabelos e os tiraria [para] fora? Que pai? que bom pai? Há pais que preferem às vezes, por não corrigir, verem seus filhos simplesmente afogados. Porque o que não castiga a seu filho, não corrige a seu filho, diz o livro dos Provérbios, o odeia… o odeia!

Termino. Claro, não se pode dar um sermão a uma classe de pedagogia cristã. É verdade. É impossível. Não é nem o lugar, nem o momento. É verdade. De todo modo, não [há de se] esquecer que os pais são os pastores de seus próprios filhos. E se alguma dessas ovelhas, por meu cansaço, ou porque se foi por aí em quebradas obscuras, está como que se descarrilhando, e eu estou um pouco fatigado… tenho de saber que esse cansaço não pode me vencer, que não basta educar bem o primeiro ou o segundo filho, porque os últimos, claro, me encontrarão caindo pelas tabelas…

Me salvo ou me condeno de acordo com o que fiz nesse período com a educação de meus filhos. E justamente por isso não se pode deixar sós essas ovelhas. “O que tenha ouvido para ouvir, que ouça”. E ao que lhe sirva a carapuça, que a ponha.

Ave Maria Puríssima!


NOTAS

[1] O equivalente ao nosso: se a carapuça serviu…

[2] Se refere, em verdade, a Eclesiastes III, 1-8.


Fonte: http://www.quenotelacuenten.org/2018/06/12/correccion-y-educacion-de-los-hijos-sermon/

Estudante foi agredida por rezar em silêncio o Santo Terço dentro de ônibus

Por Nossa Senhora Cuida de Mim / Redação Catholicus

Indicação de Airton Vieira

O inimigo tenta, mas Maria sustenta. Veja o testemunho de uma jovem garota que foi atacada por uma protestante. O motivo? A mulher não gostou do fato da jovem rezar o terço em silêncio dentro de um ônibus. Leia abaixo o desabafo da menina:

Pais de família protestam contra o ensino LGBT nas escolas

Tradução de Airton Vieira

Em 23 de abril passado, um movimento internacional de Pais de alunos de vários países do mundo anglo-saxão organizou uma “jornada de retirada” da escola para protestar contra a educação sexual com tendência LGBT, à qual são submetidos seus filhos nos colégios que estudam.

A iniciativa, denominada “sex ed sit out“, se pôs em marcha em Charlotte, Carolina do Norte, e dali se estendeu a uma quinzena de outras cidades dos Estados Unidos, seguidas por outras no Canadá, Reino Unido e Austrália. Os Pais protestaram, em particular, contra as imagens demasiado explícitas dos livros escolares dedicados à educação sexual, que beiram à pornografia, e contra o adestramento na teoria de gênero.

Agências internacionais como a OMS, a UNESCO e a mesma UNICEF há vários anos são promotoras de verdadeiras e autênticas aberrações como o ensino da masturbação desde o jardim de infância e a promoção de todas as formas de sexualidade e de aborto.

Não se pode senão expressar o mais pleno apoio à iniciativa destes Pais de família. (M.V.)

O artigo Pais de família protestam contra o ensino LGBT nas escolas provém de Correspondencia romana | agência de informação.


Fonte: https://adelantelafe.com/Pais-de-família-protestam-contra-la-ensenanza-lgbt-en-las-escolas/

Assim dirige a maçonaria a engenharia social: o exemplo da ofensiva da eutanásia na França

Por Javier Lozano / ReL

Tradução de Airton Vieira 

Em 2016 a França aprovava uma lei que legalizava o deixar de alimentar e hidratar doentes se eles mesmos – ou um representante seu no caso de incapacidade – o pedir. Os coletivos pró-vida mostraram sua grande preocupação por esta normativa que abria a porta a um precedente enquanto que os grupos pró-eutanásia ficaram por sua vez defraudados com uma lei que consideravam muito curta.

Não se passaram nem dois anos desde então e o lobby pró-eutanásia voltaram com força tentando acelerar a agenda desde a própria Assembleia Nacional, para assim pressionar a um presidente Macron a que legisle sobre este assunto.

Contos com moral da história: “Um teste para descobrir a autêntica santidade”

Por Padre Lucas Prados

Tradução de Airton Vieira

A história que lhes trago hoje é real. Aconteceu com São Felipe Neri a finais do século XVI.

Durante a vida de São Felipe Neri existiu uma monja na Itália que tinha fama de santidade. Se dizia que continuamente tinha revelações e locuções do céu. Um dia, o Papa mandou precisamente o padre Felipe ao convento onde vivia a citada monja para que avaliasse sua santidade.

O “Feminismo” e a “ideologia de gênero”

Feminismo: Olá, muito prazer me chamo Feminismo.

Ideologia de gênero: Olá, eu sou Ideologia de gênero. Prazer. A que te dedicas?

Feminismo: Eu luto pela segurança e a exaltação da mulher, e ponho em controvérsia e rivalidade os homens contra as mulheres para que não haja mais violência de gênero e não morram mais mulheres oprimidas pelo patriarcado machista. Te unes a minha causa?

Quatro sacerdotes que preferiram o martírio antes que revelar o segredo de confissão

Não se submeteram às autoridades ou os milicianos que lhes obrigaram a revelá-lo

Tradução de Airton Vieira – Depois que o Arcebispo de Melbourne na Austrália, monsenhor Denis Hart, afirmou que preferia ir ao cárcere antes que romper o segredo de confissão, devido uma possível ingerência do Estado, ACI Prensa relembra 4 sacerdotes que defenderam ao extremo o sigilo sacramental.

Em 14 de agosto a Royal Commission, entidade criada na Austrália para investigar os casos de abusos sexuais, propôs que os sacerdotes da Igreja Católica rompam o segredo de confissão quando saibam de algum caso de abuso sexual.

Não obstante, o Código de Direito Canônico que rege a Igreja Católica assinala que “o sigilo sacramental é inviolável; pelo qual está terminantemente proibido ao confessor descobrir o penitente, por palavra ou qualquer outro modo, e por nenhum motivo”. Aqui os 4 sacerdotes que defenderam até o extremo o segredo de confissão.

500 anos de Reforma: um brinde! (?)- Bibiografia e Indicação de Fontes

SITES

(1) http://adelantelafe.com/

(2) https://missatridentinaemuberlandia.wordpress.com/

(3) http://romadesempre.blogspot.com.br/

(4) http://www.hsjonline.com/

(5) http://mulhercatolica.blogspot.com/

(6) http://www.fratresinunum.com/

(7) http://www.missatridentina.com.br/

(8) https://quenotelacuenten.com/

(9) http://macabeus.no.comunidades.net/

(10) http://www.chestertonbrasil.blogspot.com/

(11) http://www.montfort.org.br

(12) http://www.pueblodemaria.com

 

LIVROS

(1) A Didaquê.

(2) A Igreja, a Reforma e a Civilização – Obras Completas do Pe. Leonel França S.J – v. II (Agir).

(3) A Inquisição em seu mundo – João Bernardino Gonzaga. Ed Saraiva.

(4) A verdadeira religião – S. Agostinho. 2ª edição. 1987. Ed. Paulinas.

(5) As grandes heresias – Hilaire Belloc.

(6) Bíblia Sagrada – tradução Pe. Matos Soares. 32ª edição. 1973. Ed. Pau­linas.

(7) Bíblia Sagrada. Ed. CNBB-Cristal. 14a ed. Paulinas

(8) Biblia Comentada. Straubinger. 1969.

(9) Carta do além – cópia digitalizada.

(10) Catecismo de S. Pio X.

(11) Catecismo ilustrado – Edição da Juventude Catholica de Lisboa.

(12) Catolicismo e protestantismo – Obras Completas do Pe. Leonel Fran­ça S.J – v. VI (Agir).

(13) Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental – Thomas E. Woods Jr. 4ª ed. Quadrante, 2011.

(14) Confissões – S. Agostinho. 22ª ed. 2010. Ed Paulinas.

(15) Diccionario de Patrística – Por César Vidal Manzanares.

(16) Encíclica Dominus Yesus – Papa Bento XVI – Ed. Paulinas.

(17) Hereges – G. K. Chesterton.

(18) História Eclesiástica de Dom Bosco.

(19) Jesus de Nazaré (3 v.) – Joseph Ratzinger. Ed Paulinas.

(20) La nave y las tempestades: La Reforma Protestante – Alfredo Sáenz. Gladius, 2005.

(21) Legítima Interpretação da Bíblia – Lúcio Navarro (Campanha de Ins­trução Religiosa Brasil-Portugal. Recife. 1958).

(22) Milagres da Hóstia Santa – Romano. Ed Paulinas.

(23) Milagres eucarísticos – Juraci Josino Cavalcante (compilador). http:// quodlibeta.bolgspot.com/

(24) O Diabo, Lutero e o Protestantismo. Pe. Júlio Maria de Lombaerde. Imaculada, 2016.

(25) O Homem e a Eternidade – Reginald Garregou-Lagrange. Ed. Flam­boyant.

(26) O homem eterno – G. K. Chesterton.

(27) O manuscrito do Purgatório – Trad. Mons. Ascânio Brandão. 2ª edi­ção. Ed Paulinas.

(28) Ortodoxia – G. K. Chesterton.

(29) Patrística-Padres Apostólicos – Ed. Paulinas.

(30) Por um cristianismo autêntico – D. Antonio de Castro Mayer. Ed Vera Cruz. 1971.

(31) Suma contra os Gentios – S. Tomás de Aquino. Ed Paulinas.

(32) Suma Teológica – S. Tomás de Aquino. Ed Paulinas.

(33) Todos os caminhos levam a Roma – G. K. Chesterton.

(34) Todos os caminhos levam a Roma – Scott e Kimberly Hahn.

(35) Um Exorcista Conta-nos – Pe. Gabriele Amorth. Ed. Paulinas.

500 anos de Reforma: um brinde!(?) – Epílogo

Caro leitor, se você, não sendo católico chegou até aqui, passando por toda a via crucis deste livro, permita partilhar minha felicidade movida por três razões.

A primeira, porque independentemente de suas motivações foi preciso travar uma luta constante ao menos contra a ignorância, a soberba, a malícia e a covardia, o que não é tarefa fácil. Como de Deus procede o querer e o executar (cf. Fil II, 13), graças sejam dadas a Nosso Senhor Jesus Cristo por sua perseverança, e grato por permitir a atuação da Graça.

A segunda, porque se a intenção que o moveu a esta leitura for reta, não resta dúvida de que o bom Deus, pelas mãos amorosas de Sua e nossa Mãe, o guiará para ou de volta à Casa Paterna (cf. Lc XV, 11-24).

A terceira, porque ainda que a intenção tenha sido a de contestar, isto só poderá ocorrer pelo estudo sério e desapaixonado, ou simplesmente pelo uso da razão, acima e além das emoções e dos sentimentos, uma vez que Deus não se importa com tais coisas: Ele se importa com a nossa salvação.

Apêndice – Ecce Homo

Quem não crê como eu é destinado ao inferno. Minha doutrina e a doutrina de Deus são a mesma coisa. Meu julgamento é o julgamento de Deus” (M. Lutero)

Na versão impressa deste livro denominada “Evangélico, graças a Deus!(?)”, o presente apêndice estava ausente por considerar que tanto as colocações ao longo do trabalho como as indicações de leitura (última postagem) seriam satisfatórias. Como a realidade nos mostra que às fontes já quase não se bebe, uma vez que, como li recentemente, na vida de “internautas” há muito face e pouco book, resolvi acrescentar nesta versão digital, como rabeira, umas notas sobre o autor mor da heresia protestante, o homem que pretendeu destruir o Catolicismo substituindo o Altar Mor sacrifical por suas festivas mesas de bate-papo[1]. Sem abandonar o objetivo a que me propus com este estudo, também aqui as informações serão concisas, retiradas de algumas fontes que logo serão fornecidas, para quem tiver a reta intenção da verdade e não tiver preguiça de encontrá-la.

Capítulo XIX – Verbo representar x Verbo ser [A “dura” Doutrina da Eucaristia]

“Porque, qual é o bem (oriundo) dêle, e qual a sua formosura, senão o pão dos escolhidos e o vinho que gera virgens?” (Zac IX, 17)

Deixei para o final o ponto mais grave e temerário para alguém que permanece neste erro, isto é, na heresia protestante, possuindo uma ignorância vencível[1]. Há pelo menos 50 anos o que muito se vê na Igreja e no mundo é o discurso de tipo ecumênico[2]. Hoje fala-se mesmo em uma “missa ecumênica”, em que o elemento principal do culto divino por excelência desaparece; óbvio. No entanto, ao se definir dogmaticamente que Fora da Igreja não há salvação[3], um dos motivos para sua justificativa pode ser aqui – neste “elemento” – encon­trado com clareza e força argumentativa. Para discorrer sobre ele escolhi como instrumento de auxílio a gramática, uma vez que possui, compreensivelmente, ligação com o Verbo.

Capítulo XVIII – Mãe de quem? “Do meu Senhor”! [Nossa Senhora]

“Ó Santa e imaculada virgindade, não sei com que louvores Vos possa exaltar; pois quem os céus não podem conter, Vós O levastes em vosso seio”

Os pontos mais controversos entre católicos e protestantes, como não poderia deixar de sê-lo, são os que tocam diretamente Mãe e Filho. Como nada há de oculto que não venha cedo ou tarde revelar-se, vamos presenciando nos dias atuais a “rédea solta” e desenfreada do ódio a este divino par, e de forma cada vez menos oculta ou disfarçada. Sinais dos tempos! No que diz respeito ao Filho, o mencionarei no próximo capítulo. Em relação à Mãe, basta com os exemplos das inúmeras imagens de Maria que como nunca vêm sendo profanadas, deste a destruição física por parte de protestantes, muçulmanos e pagãos[1], até sua nefasta utilização em apresentações “artísticas” e, o que é pior, em reuniões e cultos “ecumênicos” com direito à (triste) presença de nossos prelados. Nada que não se esperasse do pai das trevas e seus filhos.

À título de introdução, para se ter uma pequena ideia, nos estudos sobre Nossa Senhora, onde a Teologia destinou uma disciplina específica por nome Mariologia, há páginas já na casa dos milhares. E ainda não se disse tudo. Outrossim, depois do Santo Sudário de Turim (IT), o objeto mais estudado em todo o mundo é a manta de San Juan Diego na que se vê estampada, há mais de 500 anos, uma imagem da Virgem denominada de Guadalupe (ME), de origem sobrenatural. E isso nos diz alguma coisa.

Não poderia, por isso, ficar de fora deste trabalho tema tão candente. Aqui vai, com a devida vênia, meu “óbolo da viúva”.

Capítulo XVI – “Sede meus (não maus) imitadores” [Os Santos]

“Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.”

(Lc XVII, 10)

 

O tema nos lembra a pegadinha: você está no meio do rio para escapar ao incêndio e uma sucuri vem para devorá-lo. De um lado da margem há o incên­dio e de outro, uma onça pintada. Qual margem escolher?

Mais que um problema teológico, o protestantismo acabou inventando uma espécie de pegadinha aos seus membros; nada que um pouco de lógica e de bom senso não sejam suficientes para resolver o problema, contanto que se tenha retidão intelectual. Os santos sempre foram alvo de um falso dilema, como o acima. Fizeram com que se acreditasse que ou se adorava a Deus ou aos santos. Mal sabem os protestantes que a onça é pintada

“Estote ergo vos perfecti, sicut et Pater vester cælestis perfectus est” (Mt V, 48). Deus nos quis e ainda nos quer santos (perfeitos). É o que de mais sublime se pode almejar em uma vida. E o tudo, comparado a isto é nada. Daí que se os santos não existissem, haveria uma meta, um objetivo, um porquê para existir. Com base nisso se tentará lançar luz à questão.

Consideremos um casal íntegro, e que possuam filhos que por sua vez sigam os seus passos, sendo assim pessoas de bem. É sensato supor que estes filhos serão bem quistos e elogiados pelos demais. Os pais que por vê-los admirados e aplaudidos se sentissem por isso diminuídos ou humilhados, teriam por certo algum problema. Primeiro porque supõe-se que pais amem seus filhos, e o amor, o sabemos, não tem inveja ou busca os próprios interesses[1]; segundo, porque elogiar a um filho será, ponto passivo, elogiar quem o concebeu e educou. Daí as expressões: “fulano é bem criado” e “tal pai, tal filho”.

[Um pequeno registro. Foi dito: “aquele que se exaltar será humilhado e o que se humilhar será exaltado.” (Mt XXIII, 12)]

É de senso comum no protestantismo que não devemos cultuar os santos tampouco pedir sua intercessão. Muito bem. Primeiramente há que perguntar aos que pensam estar defendendo a honra e a glória de Deus com tal gesto se acaso sabem o que significa cultuar e se há mais de uma forma de fazê-lo. Será prudente desconfiar de quem, especialmente entre os pastores, nunca ouviu falar em culto de latria, dulia e hiperdulia. E aos que já conhecem os termos, mas têm má vontade em entendê-los, desconfiar em dobro. Me limitarei em dizer que o primeiro se refere à adoração, só destinado a Deus, os outros à veneração ou respeito e reverência, que aos homens é permitido, inclusive, pela Bíblia, como se viu no capítulo referente às imagens. Logo, resta saber que tipo de culto os católicos prestam aos santos. A resposta será o segundo. Um simples dicionário nos dá ciência de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, ou seja, de que a Deus se adora, venera e reverencia, enquanto que aos homens (quando merecem) apenas se venera e reverencia. Os católicos, por saber disto, seguem tranquilos em sua consciência há quase dois mil anos. Só não seguirá quem não souber distinguir entre gatos e lebres, terminando por dar ouvidos a quem não deveria.

A história da Igreja está repleta de exemplos documentados de cultos de dulia, ou seja, de veneração aos santos, suas relíquias (restos mortais) e objetos que a eles pertenceram, tudo por razões completamente razoáveis, uma vez que: “… Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo; de tal modo que até sendo aplicados aos enfermos os lenços e aventais que tinham tocado no seu corpo, não só saiam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se retiravam” (At XIX, 11s)[2]. E a quem quiser argumentar que “Paulo estava vivo”, então vale a pena lembrar que: “… logo que o cadáver tocou os ossos de Eliseu, o homem ressuscitou, e levantou-se sobre os seus pés” [2 Re XIII, 21] (ossos aqui – não custa nada esclarecer – referem-se não aos de um profeta Eliseu dotado de uma bela fratura exposta, mas aos de um profeta Eliseu morto; se preferir, restos mortais). Quanto à Mãe de Deus, que na ordem da Graça está acima dos santos e anjos, por dignidade e missão exercida nos planos da salvação, o culto será o de hiperdulia. Sobre ele se falará no próximo capítulo, dedicado a Ela.

Se as coisas são assim, o que estará então por trás do culto aos santos e de Nossa Senhora? Nada mais nada menos que a glória de Quem os criou. E os bons entendedores não tardarão a entender, pois se mostrará “onde está na Bíblia”:

Primeiro, aqui: “Sede meus imitadores, como eu também o sou de Cristo.” (1 Cor XI, 1)

Segundo, aqui: “O que aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim (Paulo), isso praticai; e o Deus da paz será convosco.” (Fil IV, 9)

Terceiro, aqui: “Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos.” (Fil III, 17)

E quarto, aqui: “O que vos ouve, a mim ouve, e o que vos despreza, a mim despreza. E quem me despreza, despreza aquele que me enviou.” (Lc X, 16)

Pela ótica protestante é de supor que estas frases jamais devessem constar na Bíblia. Bem provável que Lutero também as quisesse tirar[3]. O fato é que elas, por si, são a prova de que os santos foram postos como “sal da terra” e “luz do mundo”, jus­tamente para que Deus pudesse ser glorificado em seus membros (cf. Mt V, 13-16). Ora, se não há membros santos que possam ser assim reconhecidos, não há uma Cabeça santa. Por isso o demônio se esforça tanto em fazer com que não se reconheça a santidade dos membros, porque sabe que estes pertencem a uma Cabeça. Mas se aqui se quiser novamente argumentar que tais santos são somente os vivos, então se pedirá que respondam: acaso os mortos em Cristo não estão vivos e junto a Ele no céu? Por que mencionaria então como modelos a “Abraão, Isaac e Jacó”, que nesse momento sequer estavam ainda no céu, uma vez que este não tinha sido aberto por Ele, mas que obviamente já não estavam pre­sentes há quase dois milênios[4]? Notemos por fim que o próprio Senhor designará os homens por um atributo que só a Deus se poderia designar, o de “santo”[5].

Vencendo a ignorância vencível

Quando cultuamos os santos, ou seja, prestamos-lhes homenagem (culto de dulia), não estamos fazendo outra coisa que ver/reconhecer as suas boas obras e glorificar a Deus que está nos céus (cf. Mt V, 16). Os santos existem, portanto, para serem provas vivas de que Deus existe e pode realizar milagres, pois sua própria vida não tem explicação do ponto de vista meramente humano. O que fazem, como vivem, a forma com que acreditam e, principalmente, o amor que têm a Deus e ao próximo, ao ponto de renunciar família, bens, poder, status, prosperidades, somente será possível através de uma explicação sobrenatural que justifique o cum­primento desta missão e a realização de atos muitas vezes heroicos, no verdadeiro sentido da palavra. Logo, uma vez que rendamos homenagens aos santos, que exaltemos aqueles que se humilharam, estaremos reconhecendo que tudo o que fizeram de bom veio do alto e a glória deve ser dada ao doador dos dons. Não será justo ou mesmo lógico achar que Deus (o Pai) possa sentir-se diminuído ou humilhado quando se reconhece nos homens e mulheres (os filhos) que O servem com mais perfeição as virtudes que só dEle poderiam proceder.

Mais.

Agindo assim estaremos cumprindo e fazendo cumprir a palavra divina que diz que todos os humilhados seriam exaltados (cabe aqui também notar que a Bíblia não se refere a uma exaltação a se realizar somente nos céus e/ou somente por Deus). Além disso, quando exaltamos a um santo, que não passa de criatura como nós mas san­tificada pelo Criador como poucos, estamos mostrando seu exemplo ao mundo para que o mundo o imite como ele imitou a Cristo, tal como ordenou S. Paulo aos Coríntios, aos Filipenses e a todos nós.

E mais.

Ao conhecer suas vidas, entendemos que também podemos almejá-las, pois vemos que foram homens e mulheres com defeitos e pecados às vezes maio­res que os nossos, e pensamos: se Deus pode santificar essa pessoa, por que não a mim? Passamos então a pedir com mais fé, esperança e vontade de que Ele nos transforme naquilo que sempre quis de nós: pessoas santas, perfeitas, imagem e semelhança Sua.

Por fim, por que pedir sua intercessão?

Para responder esse ponto há que lembrar primeiramente que todo protestante, por coe­rência, jamais deveria pedir intercessão aos irmãos, tampouco ao pastor. Se eles afirmam que não podemos pedir nada aos santos (que estão junto de Deus, por ora de maneira não corporal) por­que devemos ir a Deus diretamente, pois “há um só mediador…”, tampouco deveriam pedir algo a pessoa al­guma. Aqui voltamos a uma questão anterior[6]: se placa de igreja não salva, então não deveriam perder tempo pertencendo a uma; se podemos interpretar a Bíblia livremente, então não deveriam perder tempo ouvindo um intérprete como nós (o pastor) interpretando-a para nós; se temos o direito de ir diretamente a Deus, então pare­mos de ir aos homens, vivos ou mortos.

O que não se percebe é que tanto em relação aos que estão entre nós quanto aos que estão com Cristo na glória celeste não há problema algum em pedir sua intercessão[7]. Há seitas que não creem que ao morrer possamos ir diretamente ao céu. A estes, os espíritos dormem com o corpo na sepultura. Como, não o sabemos, pois o espírito além de não morrer não dorme jamais, simplesmente por não pos­suir matéria, corpo corruptível[8]. A maioria das seitas felizmente deste mal não sofre. Sofrerá, porém, de outro.

Como explicar que se possam pedir intercessões e orações aos vivos que ainda estão entre nós, e que por isso continuam pecando, às vezes mais e mais gravemente que nós mesmos, e não se possa pedir aos vivos que já contemplam a Deus “face a face” (cf. Mt XXII, 29-32; Ap V, 8; VIII, 3s)? Guardadas as devidas proporções, será o mesmo que querer que uma faxineira ou um office boy peçam algo ao Presidente da República, sendo que o poderíamos fazer à sua Secretária pessoal ou Chefe de gabinete, que com ele convivem “cara a cara” e com mais autoridade. O curioso é que os protestantes, ao mesmo tempo em que negam e criticam os santos sem nunca os ter lido ou conhecido, têm na conta de “homens santos” a notórios picaretas e usurpadores, pedindo suas orações e intercessão enquanto se desfazem do que têm (e não têm) para fazer o que a Bíblia proíbe: dar-lhes o dízimo pela pregação da palavra[9]. Vá se entender…

Por fim, querer justificar a não intercessão dos santos ou de Nossa Senhora utilizando Cristo como único mediador entre Deus e os homens também será ou falta de lógica ou heresia. A heresia estará com aqueles que negam a Cristo como Deus e a própria Santíssima Trindade, julgando haver três deuses. O erro de lógica ficará com os que creem em Deus Uno e Trino, mas não entendem que Cristo é o único mediador entre Deus Pai e os homens, o que não impede em absoluto que os santos – e especialmente Maria Santíssima – sejam interces­sores entre Deus Filho e os homens. Ao que sabemos, não “está na Bíblia” nada a respeito de Cristo dizer que ninguém iria a Ele (Verbo, Filho, Segunda Pessoa) senão por Ele…

Concluindo

Os católicos não adoram os santos ou a Virgem Maria, os respeitam e vene­ram porque assim estão dando glória ao Criador e Santificador, adquirindo mais disposição para imitar os melhores exemplos de imitação de Cristo que jamais existiram. Se os filhos não têm em casa bons modelos a imitar, provavelmente imitarão os maus modelos de fora. Por isso Deus inspirou os santos, para que quando os bons exemplos faltassem, houvesse uma luz ao fim do túnel, a luz da­queles que por receber a luz de Cristo puderam transmiti-la, como a lua a luz do Sol. Daí que somente a Santa Mãe Igreja poderá se orgulhar de ter entre seus filhos um S. Francisco de Assis ou um S. Antônio de Pádua, que entre inúmeros dons podiam conversar com os animais e ambos se entenderem, literalmente; um S. Francisco de Paula, que ressuscitou uma mesma pessoa duas vezes; um S. José de Cupertino, que só em ouvir os nomes de Jesus e Maria caía em êxtase, voando (também literalmente) ou levitando de onde estivesse até a Igreja mais próxima para adorar ao Santíssimo Sacramento; um S. Pio de Pietrelcina e um S. Cura D’Ars, que conheciam os pecados de seus confidentes antes mesmo de os confessar e sem nunca os ter visto, além de possuir o verdadeiro dom de línguas uma vez que falavam em sua língua (italiano e francês, respectivamente) e os interlocutores de outros países os escutavam em sua língua materna; uma S. Maria Goretti, que aos 11 anos preferiu a morte a ter de ceder a um estu­pro; uma S. Catarina de Sena, que sendo analfabeta ditou centenas de páginas de uma sabedoria divina, chegando a exortar a um Papa, que humildemente a atendeu em sua exortação[10]; ou ainda uma Tereza Newman, que durante 33 anos só se alimentou de água e de Eucaristia, o Pão do Céu, recebendo sobrenaturalmente, como S. Francisco de Assis, S. Pio de Pietrelcina e outros as marcas dos pregos de Cristo (os estigmas) nas mãos, nos pés, e no lado o corte da lança. Tudo isso sem falar nos verdadeiros milagres realizados pelas mãos, restos mortais e pertences destes homens e mulhe­res de Deus, que a Igreja os têm catalogado, estudado e apresentado ao mundo para quem quiser ver e comprovar, tendo em conta não se tratar de fraudes, coisa que facilmente poderia ser desmascarada, mas feitos concretos que geraram no decorrer desses quase dois mil anos a rendição e conversão de ateus, agnósticos, judeus, maçons, hindus, esotéricos, protestantes e muitos outros, o que até o presente momento em que escrevo estas linhas vem ocorrendo.

Por isso nos dirá um ilustre desconhecido:

Com amor infinito deste-nos os Santos, Deus amado, dos quais fi­gura em excelência a Santíssima Virgem. Luzeiros no firmamento sombrio de nossas vidas, deste-nos para que ao imitá-los pudéssemos imitar-Te. De não suportar nossa débil mácula a Tua luz solar, a refletiste ne­les, luzes lunares, subtraindo-nos da atroz escuridão. Vieste em nosso auxílio com um lampejo acessível; a nós, noturnos peregrinos em busca da eterna luz da felicidade.

 

Em tempo: a Igreja sempre utilizou de muito discernimento para elevar estas pessoas à honra dos altares. Antes bastava o reconhecimento da Tradição, que de per se já era criterioso; depois, sua vida passou a ser cuidadosamente examinada, exigindo-se para declará-los santos a comprovação científica de uma ou duas curas milagrosas autênticas, ocorridas por sua intercessão após a sua morte, entre outros pormenores de igual seriedade. Deus, por isso, para exaltar os que por Ele se humilharam, deixou duas grandes provas da santidade de tais pessoas: vários deles após séculos de sua partida tiveram seus corpos intactos, no todo ou em parte, sem utilização de produtos químicos (conservação artificial). Tudo pesquisado e estudado por cientistas não católicos e não cristãos, que até hoje não encontraram uma explicação natural para o fenômeno: são os “corpos incorruptos”; todos, intrigantemente, de pessoas católicas fervorosas (do que sou testemunha ocular). E, em um mundo onde personagens vêm e vão, passam e são esquecidos, os santos permanecem na memória de todos os povos como um verdadeiro sinal: o sinal de que Deus existe e opera milagres pelas mãos dos homens.


NOTAS

[1] Cf. 1 Cor XIII, 4-7.

[2] Exemplos impressionantes podemos ler nas “Atas dos mártires”, documento do século II deixado pelas testemunhas oculares de Cristo nos primeiros períodos da Igreja e de sua perseguição.

[3] Ver a este respeito o capítulo VI – O cânon.

[4] Cf. Mt XXII, 32; Mc XII, 26s; Lc XVI, 19-31; XX, 37s; Jo VIII, 30-39.

[5] Cf. Lc II, 29-32; Jo I, 5.9; III, 19; VIII, 12.

[6] Ver capítulo II – “Fora da Igreja não há salvação”.

[7] Mesmo às almas santas (já salvas) que se encontram no Purgatório (ver capítulo XIV). Sugiro ainda uma vez a quem deseje aprofundar o tema a leitura de O Manuscrito do Purgatório.

[8] Cf. Lc IX, 28-33; Fil I, 21-33; Ap VI, 9ss.

[9] Ver Capítulo IX – O Dízimo.

[10] No caso em questão, a exemplo de muitos outros, temos uma eloquente prova do “machismo” da Igreja, em sentido obviamente contrário. Nunca a mulher foi tão valorizada como quando a Igreja caminhava junto aos poderes civis. Nunca a mulher foi e é tão sublimada como pela instituição mais acusada de machismo em todo o mundo, alvo de revoltas das feministas modernas e de todos os tempos.

Um bispo fala: entrevista a Mons. Schneider pelo Pe. Javier Olivera Ravasi

Buenos Aires, 1º de Outubro de 2017

Tradução de Airton Vieira – Aproveitando a visita que Mons. Athanasius Schneider fez à Argentina, no marco do XX Encontro de Formação Católica organizado pelo Círculo de Formação San Bernardo de Claraval, tivemos a oportunidade de entrevistá-lo graças à generosidade de seus organizadores.

Queremos aproveitar também para agradecer de público, não só à Sra. Virginia Olivera de Gristelli e seu esposo, Jorge, como também aos jovens que, abnegada e sacrificadamente, organizaram um dos encontros católicos mais importantes de nosso país.

Quanto à entrevista, oferecemos aqui, o vídeo e a transcrição que, cremos, vale a pena dedicar um tempo para ouvi-la, a fim de,

Que no te la cuenten[1]

Capítulo XV – “O que arde, cura. O que aperta, segura” [A Inquisição e as Cruzadas]

Um preâmbulo

Façam os protestantes – e tantos outros – o que mui raramente hoje se faz: bebam das fontes[1]! Se houver o mínimo de integridade não digo nem moral, mas intelectual, e verão que em dois mil anos de Cristianismo não houve, não há, tampouco haverá instituição mais atacada, combatida, caluniada, perseguida e odiada que a Igreja Católica. São milhares de páginas contendo altas – e baixas – teorias de conspiração e projetos arquitetados com o único fim de extirpar do mundo essa persona non grata, uma vez que: 1) Cristo crucificado, anunciado desde sempre pela Igreja, é “escândalo para os Judeus, loucura para os Gentios” (1 Cor I, 21), e que por isso 2) “… Se êles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós, se êles guar­daram a minha palavra, também hão de guardar a vossa. Mas tudo isso vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquêle que me enviou.” (Jo XV, 20s).

Diante desta verdade não será mui difícil se entender estas duas reações da Igreja: a Inquisição e as Cruzadas. Aos de boa-fé, queiram nos acompanhar.

Rumo a um “Novissimus Ordo Missae”?

Por SÍ SÍ NO NO

Tradução de Airton Vieira

Na web “www.maurizioblondet.it” de 10 de setembro de 2017, leio que uma Comissão vaticana estaria preparando textos litúrgicos ad experimentum para a celebração de «missas ecumênicas».

Por exemplo, na Diocese de Turim, o grupo ecumenista «Spezzrare il pane» [Partir o pão, ndt], dirigido pelo senhor Fredo Oliviero, apoiado decididamente pelo bispo de Turim, mons. Cesare Nosiglia, começou a celebrar ecumenisticamente a missa junto aos valdenses, aos ortodoxos, aos anglicanos e aos luteranos.

Capítulo XIV – Idolatrias Protestantes [As imagens]

“É que Narciso acha feio o que não é espelho.”

(Caetano Veloso)

 

Resumindo

Peguemos um exemplo concreto para falar do tema. Em um vídeo postado há alguns anos assisti a uma cena de um culto neopentecostal em que um, como chamaríamos, “pastor da prosperidade” fazia sua defesa contra o que considerava idolatria na utilização de imagens e nas orações a elas dirigidas pelos católicos. O homem em questão é uma dessas espécies a quem podemos denominar bons de grito, figura apropriada a estes (fins dos) tempos tão conturbados, e barulhentos.

Dizia ele ao seu público que havia debatido com um padre em um programa televisivo sobre a questão das imagens. O padre, em dado momento o indagou se em suas viagens não levava na carteira como recordação a imagem de sua esposa. Já antevendo a argumentação do sacerdote, sua resposta foi positiva, mas – acrescentou em tom de burla –, nunca se ajoelhava diante dela para realizar algum pedido, e isto é o que fazia a grande diferença. E por aí foi a entusiasmada pregação…

II- Demônios (Cornélio A. Lápide)

Por San Miguel Arcanjo

Tradução de Airton Vieira

Por que Deus salvou o homem e não o anjo?

Os santos Pais indicam cinco causas principais que fizeram com que o perdão fosse negado ao anjo e concedido ao homem.

A primeira é que o homem pecou por fragilidade da carne; enquanto que o anjo, não tendo corpo, não tinha esta fragilidade…

A segunda é que o anjo pecou sem ser tentado por ninguém; enquanto que o homem foi tentado e seduzido pelo demônio…

A terceira é que não caiu toda a raça dos anjos, mas só parte deles; enquanto que na pessoa de Adão toda a natureza humana caiu. A posteridade de Adão não era indigna do perdão, posto que não havia tomado parte em sua vontade no pecado do primeiro homem. Assim o sente Santo Agostinho…

A quarta é que o anjo, por causa de sua grande inteligência, pecou com plena vontade e malícia; enquanto que o homem, dotado de uma inteligência mais escassa, pecou por debilidade e obedecendo a um impulso estranho, mais que por uma vontade muito deliberada e por malícia…

A quinta é que o anjo foi criado no mais alto grau de honra que pudesse alcançar enquanto estava ainda no caminho do mérito, e devia ser confirmado em graça pela contemplação de seu Criador. O homem, pelo contrário, havia sido criado em uma ordem inferior. Colocado na terra, destinado a multiplicar sua raça antes de chegar a melhor vida, se encontrava mais apartado da bem-aventurança…

O demônio é homicida.

Vós sois filhos do diabo, disse Jesus Cristo aos escribas e fariseus, orgulhosos e criminosos, e assim quereis satisfazer os desejos de vosso pai: Ele foi homicida desde o princípio, e criado justo, não permaneceu na verdade (João VIII, 44).

Com sua rebelião, o demônio se deu a morte… Foi homicida do primeiro homem, e o é da raça humana… Até queria destruir a Deus, se tivesse podido, a fim de usurpar seu posto. E o que não pode fazer a Deus no céu, o fez na terra, fazendo que os judeus matassem a Jesus Cristo…

O demônio é o pai da morte; não engendrou jamais outra coisa mais que a morte. Não sabe fazer viver: como um ladrão hábil e feroz, não sabe mais que despojar, degolar e rir-se dos crimes que pode cometer…

O demônio é o pai de todos os crimes e de todas as heresias.

O que comete pecado, do diabo é filho, porque o diabo continua pecando desde o momento de sua caída, diz o apóstolo São João. O demônio é o príncipe do pecado, e o pai de todos os males, diz São Cirilo.

O demônio é o autor de todos os crimes, de todas as mentiras e de todos os erros: por isto é o pai dos hereges e das heresias. Sem ele jamais teria existido o pecado; e sem ele, por conseguinte, jamais teria havido misérias, enfermidades, morte e inferno; porque todas estas coisas terríveis são a pena do pecado… Nenhum ser é tão culpável, criminoso, depravado e infame como o é Satanás…

Por que compara Jesus Cristo o demônio ao relâmpago e ao raio?

Eu vi, diz Jesus Cristo a seus apóstolos, Satanás cair do céu como um relâmpago (Luc X, 18).

Lúcifer é comparado ao relâmpago e ao raio: 1° por causa de sua agilidade…; 2° por causa de seu poder para danar…; 3° porque chega logo, mas passa e desaparece da mesma maneira, se não se o escuta…; 4° porque aparece algumas vezes sob uma forma brilhante e pura: ainda que rejeitado, e desprezado e maldito, se transforma em anjo de luz…

Por que é chamado leão o demônio?

Sede sóbrios e velai continuamente, diz o apóstolo São Pedro; porque o diabo, vosso inimigo, anda girando ao vosso redor como um leão que ruge em busca de quem devorar (1 V, 8).

Satanás é chamado leão; porque, 1° como o leão, vela… 2° É cruel como o leão… 3° Ruge como o leão… 4° O leão que se lança sobre sua presa, obedece à ira, à raiva, à fome; e o mesmo sucede com o demônio: o leão despreza e pisoteia as sobras de sua presa; o demônio despreza e pisoteia aos que perverte e mata… 5° O leão se oculta para surpreender a sua presa; o demônio também… 6° O leão se enfurece; Satanás também… 7° O leão cheira mal; o demônio espalha por todas as partes o mal odor das paixões e do pecado… 8° O leão e o demônio desejam poder devorar… 9° O leão e o diabo rondam buscando sua presa…10° O leão ataca sobretudo aos animais de grande tamanho e poderosos, despreza aos pequenos e aos débeis, não come mais que o que pega vivo; o demônio faz do justo sua vítima privilegiada, ataca sobretudo as almas mais piedosas, mais santas, mais elevadas em virtude e mais heroicas; despreza os corações covardes e carnais… 11°. O leão e o demônio se lançam com mais furor sobre o homem quando se veem feridos…

“Tesouros de Cornélio Á Lápide”


Fonte: http://adelantelafe.com/demônios-conerlio-lapide-ii/

Demônios (Cornelio A. Lapide)

Por San Miguel Arcanjo

Tradução de Airton Vieira

EXISTEM DEMÔNIOS?

Não há dúvida que existem espíritos malfeitores que se chamam demônios, pois a Sagrada Escritura assim nos atesta e todas as nações unanimemente o reconhecem.

As nações pagãs têm crido na existência de certos gênios, uns bons e outros maus; deduzindo disto que era preciso ganhar o afeto dos bons com respeitos, oferendas e orações, e apaziguar a cólera e a malignidade dos maus. Daí nasceram a idolatria, o politeísmo, as práticas supersticiosas, a magia, adivinhação, etc. Esta crença tem sido também a dos filósofos pagãos…

II- O matrimônio natural e o matrimônio sacramento

Por Padre Lucas Prados

Traduzido por Airton Vieira

 

Dizíamos no artigo anterior, que o matrimônio não foi instituído pelos homens, mas por Deus (Gen 1 e 2; DS 3700)O matrimônio, como instituição natural, é de origem divina. Deus criou aos homens macho e fêmea (Gen 1:27) e depositou na mesma natureza humana o instinto de procriação. Deus abençoou o primeiro casal humano e lhes disse que se multiplicassem: “Procriai e multiplica-vos, e enchei a terra” (Gen 1:28).

I- O Matrimônio na história do homem

Por Padre Lucas Prados

Traduzido por Airton Vieira

O matrimônio cristão é aquele sacramento pelo qual duas pessoas de distinto sexo, hábeis para casar-se, se unem em mútuo consentimento em indissolúvel comunidade de vida com o fim de engendrar e educar a prole, e recebem graça para cumprir os deveres especiais de seu estado.

No presente capítulo, dedicado ao sacramento do matrimônio, tentaremos fazer uma exposição clara e resumida de tudo aquilo que um cristão bem formado deveria saber a respeito. Falaremos pois de:

  • O matrimônio na história do homem.
  • O matrimônio civil e o matrimônio como sacramento.
  • Matéria, forma, ministro, sujeito e efeitos do matrimônio.
  • Propriedades do matrimônio.
  • Os fins do matrimônio: primário e secundário.
  • Condições para a validez e licitude do matrimônio.
  • O matrimônio temporário e o matrimônio consumado.
  • Matrimônios mistos e disparidade de culto.
  • Divórcio e nulidade matrimonial.
  • É possível falar de Matrimônio entre pessoas do mesmo sexo?

Como podem ver, o tema é amplíssimo, de forma que tentaremos simplificar ao máximo mantendo em todo tempo a claridade dos conceitos e da exposição.


1.- “O homem … se unirá a sua mulher, e serão os dois uma só carne”

1.1 O mandato de Deus expresso no Gênesis

O matrimônio foi instituído por Deus como último ato criador ao formar Eva de Adão. Uma vez criado o homem disse Deus:

Não é bom que o homem esteja só, vou fazer-lhe uma ajuda semelhante a ele… Apresentou então Deus ao homem todos os gados, as aves do céu, e todos os animais do campo, aos que Adão impôs nome; mas em nenhum encontrou uma ajuda adequada para ele… e Deus fez cair um profundo sono sobre o homem. Retirou uma costela enchendo o vazio com carne, formou uma mulher e a levou ante o homem, que exclamou: Esta sim que é osso de meus ossos e carne de minha carne, será chamada varoa pois do varão há sido tomada. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e serão uma só carne (Gen 2: 18-24).

O Criador fez o homem e a mulher um para o outro de tal maneira que sua união fosse indissolúvel. Serão uma só carne. Ademais o autor sagrado não se contenta somente com elogiar a união matrimonial, como também recalca a unidade monogâmica frente aos muitos abusos. Deus bendiz ao casal e lhes dá domínio sobre a criação:

“E criou Deus o homem a imagem de Deus; os criou macho e fêmea e os abençoou Deus e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai os peixes do mar e as aves do céu e todo animal que anda sobre a terra” (Gen 1: 27-28).

O mandato de crescei e multiplicai se cumprirá inexoravelmente; sendo desde esse momento a procriação, o fim primário do matrimônio (Gen 3:20; 1:28). O pecado original ocasionou a perda do estado de inocência inicial; em adiante, o sofrimento, a concupiscência, as tentações passionais, tratarão de dominar ao homem (Gen 3:16)

1.2 Desde o Pecado Original até o Nascimento de Cristo

Em muitos povos dominou, durante séculos, o costume patriarcal de que os pais determinassem o contraente sem perguntar aos filhos, tendo um papel decisivo os interesses econômicos, dinásticos ou políticos. Por isso, se dava por suposto que a mútua e profunda inclinação entre os sexos conduzia de imediato à simpatia e ao afeto. Não raro se viam os noivos pela primeira vez no dia da boda. Então se dizia: “porque tu és minha esposa, te quero”; hoje, em troca, se diz: “porque te quero, serás tu minha esposa”.

Naturalmente, o contrato matrimonial da época patriarcal somente podia considerar-se moralmente correto quando os contraentes davam seu assentimento à decisão paterna, sem temor e sem coação, e quando podia dar-se por seguro que haveria de despertar-se o amor mútuo. A Igreja tem considerado válidos os Matrimônios celebrados segundo costume em tempo do patriarcalismo, enquanto tem declarado inválidos os Matrimônios celebrados sob coação.

O matrimônio aparece como um convênio ou assunto privado entre as partes interessadas. O noivo (ou o pai do noivo, ou a mãe ou ambos) por um lado, e os pais da esposa (ou o pai, ou a mãe ou ambos) por outro, arranjavam a boda. Deus era a testemunha e o protetor deste acordo (cfr. Tob 8:7; 10:15; Gen 1:28; 2:18; Mal 2:17).

Do forte acento posto no fim primário do matrimônio, a procriação, derivam em Israel a justificação da poligamia (1 Re 11:1 ss.), do levirato (Gen 38:6 ss.), e de outros costumes, enquanto que a falta de filhos era tida por um castigo de Deus e uma maldição (Gen 30:1; 1 Sam 1:6 ss.; Jer 18:21).

Na Antiguidade era frequente ter duas esposas (concubina ou escrava); e assim o Código de Hamurabi autorizava ao esposo de mulher estéril tomar a sua escrava. Algo parecido encontramos nos patriarcas: Sara, ao sentir-se estéril, ofereceu sua escrava Agar a Abraão (Gen 21:14). Jacó tomou por esposas as duas irmãs filhas de Labão: Lia e Raquel (Gen 26:34 ss.; 28:65). Esaú se casa com três mulheres (Gen 26:34; 28:65).

Em tempos de Salomão o interesse político influiu nas bodas e o mesmo monarca contraiu múltiplas núpcias com mulheres estrangeiras para afiançar alianças (1 Re 11:1 ss.). Com alguma antecipação se arranjava a boda com todos seus detalhes, especialmente o preço; mas longe do que se pode pensar, a aquisição da esposa não era um contrato de compra e venda, porque o marido não podia dispor de sua mulher como de um objeto adquirido por compra ou como se fazia com a escrava. O preço era antes uma espécie de compensação pelos danos e prejuízos feitos a sua pessoa ou a seus bens. O matrimônio se contraía já na mocidade, em geral aos 18 anos (Eclo 7:23; 2 Re 8:16 ss.). Uma vez pagado o preço, a esposa passava a ser propriedade sua; era seu possuidor e ela sua pertença (Dt 22:22). Quando entrava a seu novo lar sob o poder conjugal do esposo, a mulher estava casada (Gen 24:65; Ez 16:18). Se celebrava uma festa que costumava durar até sete dias (Tob 11:21; Gen 29:27; Rut 3:9). O fato de passar a mulher ao poder do marido podia simbolicamente expressar-se estendendo a orla do vestido sobre ela.

Essa difusão da poligamia não impede que a monogamia seja vista como ideal matrimonial e a Sagrada Escritura põe exemplos recomendáveis como o de José, filho de Jacó e Raquel (Gen 30:22), que pela inveja de seus irmãos foi vendido como escravo a uns mercadores ismaelitas no deserto e levado ao Egito (Gen 37: 25 ss.). Ali permaneceu fiel à lei do Senhor, e por não querer consentir em adultério com a esposa de seu amo Putifar, mordomo do faraó, mereceu a prisão (Gen 39:7). O Sumo Sacerdote não podia ter mais que uma só esposa.

No Salmo 127:3 a poligamia se dá por desterrada“Tua esposa será como uma vide fecunda no interior de tua casa” e no livro dos Provérbios se recalca a exclusividade do amor matrimonial: “Seja tua fonte bendita, sacia-te na mulher de tua mocidade, cerva amável, graciosa gazela. Tenha ela sua conservação contigo. Seu amor te apaixone para sempre” (5:16 ss.). E de modo ainda mais claro se vê no Cântico dos Cânticos.

É indubitável que a partir do Exílio (s. VI a. C), a monogamia renasce no Povo de Deus. O livro de Tobias é um claro exemplo da alta concepção do matrimônio no povo hebreu:

“Tu fizeste Adão e lhe deste por ajuda e auxílio Eva, sua mulher; deles nasceu todo a linhagem humana, Tu disseste: Não é bom que o homem esteja só; façamos-lhe uma ajuda semelhante a ele. Agora, pois, Senhor, não levado da paixão sexual, mas do amor de tua lei, recebo a esta semelhante a mim por mulher. Tem misericórdia de mim e dela e concede-nos longa vida” (8, 5-8).

O matrimônio por levirato existiu sempre no Oriente e se funda em um princípio de direito hereditário, que estabelece que a viúva deve passar sempre à família do marido. Segundo o Antigo Testamento a viúva de um homem que morria sem filhos devia casar-se com seu cunhado a fim de conseguir descendência para o defunto (cfr. Gen 38:8; Dt 25: 5-10). O costume do matrimônio por levirato existia ainda nos tempos de Jesus Cristo (Mt 22:24).

Nos textos do Gênesis o matrimônio aparece claramente descrito como uno e indissolúvel. A legislação mosaica não instituiu o divórcio, mas o tolerou. O divórcio não é uma lei, mas uma exceção tolerada. Assim o Deuteronômio autoriza ao marido que descobre “algo escandaloso” em sua esposa a escrever uma carta de repúdio, que entrega à mulher, enviando-a a casa de seus pais (Dt 24: 1-5). Segundo a maior parte dos autores, esse texto jurídico não é uma concessão de divórcio, mas antes uma limitação: isto é, opinam que em épocas anteriores, os esposos repudiavam sem mais a suas esposas; o Deuteronômio limita esse direito exigindo que exista uma causa. Ainda que em princípio o divórcio podia dar-se só por iniciativa do marido, posteriormente, em tempos do exílio babilônico, se admitiu também por parte da mulher.

1.3 A restauração do matrimônio original realizada por Jesus Cristo

Há que mencionar em primeiro lugar aqueles textos nos que Cristo restitui o matrimônio a sua primitiva perfeição pondo de relevo que a tolerância do repúdio foi por motivo da dureza do coração do povo judeu e, portanto, alheia ao espírito da lei (cfr. Mt 5:32; 19:4 ss.; Mc 10: 2-12; Lc 16:18).

Recordemos também que Jesus participa em um banquete de bodas como convidado especial e ali realiza seu primeiro milagre (Jo 2:1 ss.) convertendo a água em vinho. A tradição tem visto nesse fato uma consagração por parte de Cristo do valor das núpcias, e portanto uma como proclamação de seu carácter sacramental no cristão.

Com o anúncio evangélico aparece um novo ideal: haverá homens e mulheres que por amor ao Reino dos Céus renunciarão voluntariamente ao Matrimônio (Mt 19:11); são a virgindade cristã e o celibato. Mas isso não supõe um desprezo do matrimônio. Na nova economia, o cristão pode seguir dois caminhos até a Segunda vinda do Filho de Deus: o estado matrimonial e o celibato. Na vida futura o matrimônio será abolido pois “nem os homens tomarão mulheres nem as mulheres tomarão marido, mas que serão como os anjos no céu” (Mt 22:29).

O Novo Testamento elevou o estado matrimonial; já não é somente um pacto ou acordo entre os contraentes, onde o esposo deve pagar um preço; o matrimônio, proclama São Paulo, é um sacramento (Ef 5: 22-23).

São Paulo resolve também as polêmicas suscitadas entre os novos cristãos das comunidades gregas de Corinto. O desconhecimento da doutrina inclinava aos novos fiéis a doutrinas aberrantes: “tudo me é lícito”, diziam uns (1 Cor 6:9 ss.) desconhecendo a santidade do corpo e a ressurreição, legitimando assim a anarquia sexual; “é bom não tocar mulher”, diziam outros, suspendendo a ordem criacional. A doutrina do Apóstolo aclara as questões colocadas: pode e deve contrair Matrimônio aquele a quem Deus dá esse dom, mas de modo absoluto é melhor a virgindade. O que se casa não peca, ainda que para dedicar-se às coisas do Senhor é melhor estar célibe, pois o que se casa tem que estar preocupado pelas coisas do mundo e como agradar a sua mulher; em troca o que se mantém célibe pode dedicar-se com liberdade às coisas do Senhor (cfr. 1 Cor 7: 1-11; 1 Tim 4:3 e 5: 8-15).

Mencionemos finalmente outros textos neotestamentários nos que se faz referência a questões práticas ou aos deveres matrimoniais e familiares: Heb 13:4; Ef 6: 1-9; Col 3: 18-22; 1 Tes 5: 8-15; 6: 1-2; Tit 2: 1-10; 1 Pe 3: 1-7.

2.- Teologia bíblica sobre unidade e indissolubilidade ou matrimônio

Seria equivocada uma apresentação da doutrina bíblica do matrimônio que não tivesse em conta o dinamismo da história da salvação e o aprofundamento progressivo do povo de Israel na verdade revelada.

2.1 Os relatos do Gênesis

Há dois relatos no Gênesis sobre a criação do homem e mulher e sobre a formação do casal humano. O ver seu conteúdo e diferenças é fundamental para a devida compreensão da doutrina e moral do matrimônio.

relato de Gen 2: 18-25 é o mais Antigo dos dois; seu conteúdo fundamental se pode expressar nas seguintes afirmações:

  1. Solidão do primeiro homem“não é bom que o homem esteja só”. A este respeito já sabemos que na Igreja há duas formas de sair dessa solidão: o matrimônio e a virgindade;
  2. Igualdade fundamental de homem e mulher: se refere à igual dignidade pessoal de ambos quanto a sua natureza e destino sobrenatural (Gen 2: 22-23);
  3. Poderoso e misterioso atrativo entre homem e mulher: esta reflexão do Gen 2: 21-24 tem um interesse extraordinário para a doutrina matrimonial, sobretudo na perspectiva de sua unidade e indissolubilidade, tal como as interpreta Cristo mesmo: “não haveis lido que o Criador desde o princípio os fez varão e mulher (no singular) e que lhes disse: por isto o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e serão os dois uma só carne?”(Mt 19: 4-5);
  4. União total e íntima: se trata, em efeito, de uma união mais íntima e prevalente que a de pais e filhos, uma união de características fundamentalmente distintas, já que se trata de uma união que também é de ordem física, corporal, conjugal; sem descuidar a espiritual, psicológica, cultural, moral, pessoal. Tudo isto e mais está compreendido, ou ao menos sugerido, no termo hebreu dabaq: aglutinar, aderir-se, unir-se intimamente homem e mulher. A expressão bíblica uma carne, expressão clara e misteriosa ao mesmo tempo, parece sugerir em um primeiro plano a união conjugal mediante o ato carnal; mas tem também, como temos dito, um sentido mais pleno e total: desde o físico até o espiritual, e vice-versa. A Bíblia se move na perspectiva integral, humana e salvífica;
  5. Exclusão da poligamia e do divórcio: é a consequência que se desprende obviamente da afirmação anterior, na que o texto bíblico expôs o plano divino primitivo: se são uma mesma carne, estará claro que é ilícito dividir e separar ao homem e sua mulher: “o que Deus uniu, o homem não o separe” dirá Cristo (Mt 19:6). O Concílio Vaticano II afirma que “esta íntima união dos esposos, exige plena fidelidade dos esposos entre si e urge a indissolubilidade do matrimônio”[1].

O pecado original produzirá a princípio uma brecha nesta unidade e indissolubilidade, tal como vemos no capítulo 3 do Gênesis; brecha que acabará em ruptura no seguinte capítulo.

A segunda narração do plano de Deus acerca do homem e da mulher a encontramos em Gen 1: 26-28 e nos apresenta as características da instituição matrimonial estabelecidas por Deus:

  1. homem e mulher são imagem de Deus(1:26);
  2. sexo é bompor ser criação de Deus (1:27);
  3. fecundidade é fruto da benção de Deus(1:28).

Apresentando agora sinteticamente o resultado unitário dos elementos matrimoniais de ambas narrações bíblicas, diremos que o matrimônio segundo o plano de Deus aparece como:

  1. uma comunidade de amor entre homem e mulher(Gen 2);
  2. uma instituição (Gen 1) que provém de Deus, com as leis fundamentais de unidade e indissolubilidade;
  3. orientada para a procriação e educação dos filhos.

2.2 A época dos profetas

A restauração do matrimônio na história da salvação terá na pedagogia divina duas grandes coordenadas: os filhos e o amor; que são os dois valores fundamentais do matrimônio.

Sendo o pecado a corrupção do amor verdadeiro, os profetas quererão pôr remédio a este mal fundamental fazendo uma verdadeira teologia do amor. Eles exaltam e dignificam o amor matrimonial valendo-se do símbolo do amor de Deus a seu povo elegido. Oséias é o primeiro em utilizar este simbolismo (Os 1-3). A literatura profética apresenta indubitavelmente as páginas mais belas, luminosas e profundas do Antigo Testamento, seja pela concepção pura do monoteísmo como pela forma comovedora da descrição do amor de Deus aos homens. No primeiro plano de não poucos textos proféticos (Jer 2:2; 3:1-13; Is 54: 4-8; 62:4 e ss.; Ez caps. 16 e 23) aparece a Aliança de Deus com seu povo, recorrendo sempre como riqueza de imagem ao símbolo matrimonial. Esses profetas falam em primeiro lugar do amor gratuito de Deus a seu povo, e dos adultérios com que este responde ao amor de Deus. Nos profetas se encontram ensinamentos esplêndidos para a vida e santificação dos esposos. Esta leitura profética obteve efeitos benéficos na ordem doutrinal do matrimônio, fazendo-o progredir para formas mais puras e mais em conformidade com o plano de Deus.

2.3 Período pós-exílico (desde 538 a.C.)

O período pós-exílico assinala uma recuperação moral e espiritual muito grandes, sendo bastante clara a tendência à monogamia, ao menos como ideal do matrimônio. O adultério era severamente castigado com a pena de morte para ambos cônjuges na legislação mosaica (Lev 20:10). Quanto ao repúdio unilateral à mulher por parte do varão (praticado por todos os povos em torno a Israel) tinha uma cláusula limitadamente permissiva no livro do Deuteronômio (24:1). As famílias judias representadas no livro de Tobias eram monogâmicas (Tob 1: 6,8). E os livros sapienciais exortam aos homens a buscar a alegria matrimonial na mulher única da juventude sem pretender outras (Prov 5,18). O Profeta Malaquias se levantou com uma mensagem clara contra o libelo de repúdio dizendo por parte de Deus: “Eu detesto o libelo de repúdio, diz Yahweh, Deus de Israel” (Mal 2: 14-16).

Ao dizer que a pedagogia divina do matrimônio no Antigo Testamento foi de uma educação progressiva, ainda não dissemos o principal. Jesus dirá que Moisés havia permitido o divórcio pela dureza de coração (Mt 19,8). São Paulo dirá que a antiga economia obedecia a certa permissão da paciência divina (Rom 1-3), como se se tratasse de menor idade espiritual da humanidade até chegar à maturidade e plenitude de graça em Cristo.

2.4 Na época neotestamentária

Os Evangelhos transferem a Cristo o título de Esposo atribuído pelos profetas a Yahweh no Antigo Testamento. A doutrina do Reino de Deus, núcleo dos Evangelhos sinóticos, se articula sobre o tema da alegoria matrimonial: “O Reino dos céus é semelhante, a um banquete de bodas que o Rei preparou para seu Filho” (Mt 22: 1-14).

Um dos pontos mais significativos da mensagem de Jesus Cristo é seu ensinamento relativo à indissolubilidade do matrimônio (Mc 10: 2-12; Lc 16:18; Mt 19; 1 Cor 7). Tanto o Evangelho de São Lucas como o de São Marcos, nos textos citados anteriormente, nos transmitem a doutrina pela que Cristo define como adultério o repúdio da mulher e sua posterior união com outra: “quem repudia a sua mulher e se casa com outra, comete adultério; e quem se casa com a repudiada comete também adultério”.

Qual é o conteúdo de Mc 10: 2-12, que é a perícope mais importante?:

  • que o libelo de repúdio obedecia a uma concessão precária pela dureza de coração;
  • “que no princípio não foi assim, mas que varão e mulher os fez Deus”;
  • que constituem entre si uma união mais íntima e inseparável que a que se tem com o pai e a mãe: “por isso deixará seu pai e sua mãe e serão os dois uma só carne”;
  • Cristo insiste nesta mesma união íntima como argumento de indissolubilidade: “assim, pois, já não são dois senão uma só carne”;
  • que essa união a realiza o mesmo Deus: “o que Deus uniu, o homem não o separe”;
  • que o homem não tem poder para separar o que Deus uniu;
  • o versículo 10 nos fala da surpresa dos discípulos que uma vez em casa, interrogam a Cristo; o qual demonstra ter compreendido o alcance e a novidade desta mensagem;
  • mas Jesus insiste: “quem repudie a sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra aquela”;
  • “e se ela repudia a seu marido e se casa com outro, comete também adultério”.

Como explicar então o inciso que aparece nos relatos de São Mateus (19:9 e 5:32) que parecem uma exceção à indissolubilidade do matrimônio?

 “Mas eu vos digo que quem repudia a sua mulher — exceto o caso de fornicação — a expõe ao adultério, e o que se casa com a repudiada, comete adultério” (Mt 5:32).

“E eu digo que quem repudia a sua mulher (salvo caso de fornicação) e se casa com outra, adultera” (Mt 19:9).

Sem entrar no detalhe das mesmas, façamos algumas considerações gerais: A primeira tomada do contexto do próprio São Mateus, que é claramente em favor da indissolubilidade:

“Não haveis lido que o Criador, desde o princípio, os fez varão e mulher e que disse: por isso deixará o homem seu pai e sua mãe e serão os dois uma só carne? De maneira que já não são dois mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, não o separe o homem”. Dizem-lhe: então por que Moisés permitiu dar ata de divórcio e repudiá-la? Respondeu-lhes Jesus: por vossa dureza de coração os permitiu repudiar a vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19:4-8).

Como se vê, este contexto e este ensinamento de São Mateus não é distinto do dos outros sinóticos, mas favorável à indissolubilidade e contrário ao divórcio.

A esta primeira consideração se acrescenta que os versículos 19:9 e 5:32, que poderiam parecer insinuar que há lugar a exceções no tema de indissolubilidade, seriam, segundo exegetas bem conhecidos como Bonsirven, Spadafora, Vaccari e Spicq, uma interpretação incorreta do original. [2]Realmente o texto original não diria nisi ob fornicationem (exceto em caso de adultério),  mas exceto no caso de concubinato. A palavra grega porneia, que aparece neste versículo, e que corresponde ao rabínico zenut (Matrimônio inválido, não verdadeiro, concubinato) indicaria o caso da união na que não existiu vínculo matrimonial.[3]

Expostas estes ensinamentos do Evangelho sobre o matrimônio, ainda temos de destacar dois aspectos mais, tomados de São Paulo: o primeiro se refere à consideração do matrimônio como dom e carisma de Deus (cfr. 1 Cor 7: 1-17). Por outro lado, o mesmo São Paulo situa todo o tema do matrimônio cristão na perspectiva do mistério da salvação: “Grande mistério (sacramento) é este, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja” (cfr. Ef 5: 22-32).


NOTAS:

[1] Vaticano II, Constituição Gaudium et spes, 48.

[2] Cristo afirma a indissolubilidade do matrimônio. O inciso aparentemente exceptivo do versículo 32, que só consigna São Mateus, do que se deduz que responde à situação peculiar da Igreja mateana, composta de cristãos vindos do judaísmo e da gentilidade, se refere a Matrimônios nulos por haver sido contraídos em graus de parentesco proibidos pela lei (cf. Lev 18) e que os judeus haviam permitido a seus prosélitos. É o significado de porneia na literatura rabínica. Cf. também Mt 19:9.

[3] Cf. J. Bonsirven, Le divorce dans le Nouveau Testament, París, 1948, 422 ss.


Fonte: https://adelantelafe.com/Matrimônio-la-história-del-homem/

 

O que diz o cardeal Sarah sobre a família seria delito em vários países

A retórica dos críticos de Sarah revela que os católicos liberais se converteram em nacionalistas eclesiais.

 


Tradução de Airton Vieira

Um grupo de críticos “pede a cabeça de Sarah na bandeja” em várias revistas católicas liberais e inclusive clamam a que o cardeal seja substituído, aponta o autor Matthew Schmitz em um artigo em Catholic Herald no que aporta citações de National Catholic Reporter, The Tablet e de Commonweal.

“Sarah no foi sempre tratado como o homem mais perigoso da cristandade. Quando em 2014 o Papa Francisco o nomeou prefeito da Congregação para o Culto Divino, foi bem recebido incluso pelos que hoje lhe criticam”.

O prefeito era visto como um homem do Vaticano II, um africano favorável à inculturação, um clérigo não ambicioso, cálido e modesto.

Bento XVI: a Igreja tem urgente necessidade de pastores que resistam ao espírito da época

Para o Papa emérito, a Igreja se encontra em uma necessidade particularmente urgente de pastores convincentes que possam resistir à ditadura do espírito da época. E destaca que o cardeal entendeu que «o Senhor não abandona a sua Igreja, incluso quando o barco há assumido tanta água que está a ponto de tombar-se».

(Fidem in Terra/InfoCatólica)

Tradução de Airton Vieira

O funeral de Joachim Cardeal Meisner ocorreu esta manhã, sábado 15 de julho, na magnífica catedral de Colônia. Uma mensagem do Papa Francisco foi lida pelo Arcebispo Nikola Eterović, Núncio Apostólico na Alemanha. Para surpresa dos presentes, o Arcebispo Georg Gänswein, Prefeito da Prefeitura da Casa Pontifícia e Secretário Pessoal de Bento XVI, leu uma mensagem do Papa Emérito.

A seguir nossa tradução da bela mensagem de Bento XVI no Funeral de seu amigo próximo o Cardeal Meisner:

Capítulo I – “QUE SEJAM UM”… não dois, vinte, TRINTA E OITO MIL… [A unidade cristã]

Capa do Livro de Airton Vieira, publicado semanalmente. Por Adolfo José.

“Quase existem tantas seitas e crenças quanto existem cabeças… esta não aceita o Batismo; esta rejeita o Sacramento do altar… umas ensinam que Jesus Cristo não é Deus. Não há um indivíduo, por mais imbecil que seja, que não proclame ser inspirado pelo Espírito Santo e não proclame como profecias seus devaneios e sonhos”[1]

A citação acima poderia dar ao presente trabalho a característica de tendencioso, não fosse um pequeno detalhe: as palavras terem saído da pena de Martinho Lutero (1483-1546), o “pai” do protestantismo.

Direto ao assunto

Este pode ser considerado certamente um dos pontos centrais ao se falar em uma “Igreja de Cristo”: a unidade. Há um só Deus em três pessoas, um só Jesus Cristo, logo somente poderia haver uma única Igreja. Cristo disse que todo reino dividido contra si não é obra sua, tendo como conse­quência a autodestruição (cf. Lc XI, 17ss). Na história humana podemos verifi­car esta lei perfeitamente aplicável a todo e qualquer agrupamento: reinos, im­périos, partidos políticos, famílias, equipes de futebol e quadrilhas de traficantes.