Capítulo XIV – Idolatrias Protestantes [As imagens]

“É que Narciso acha feio o que não é espelho.”

(Caetano Veloso)

 

Resumindo

Peguemos um exemplo concreto para falar do tema. Em um vídeo postado há alguns anos assisti a uma cena de um culto neopentecostal em que um, como chamaríamos, “pastor da prosperidade” fazia sua defesa contra o que considerava idolatria na utilização de imagens e nas orações a elas dirigidas pelos católicos. O homem em questão é uma dessas espécies a quem podemos denominar bons de grito, figura apropriada a estes (fins dos) tempos tão conturbados, e barulhentos.

Dizia ele ao seu público que havia debatido com um padre em um programa televisivo sobre a questão das imagens. O padre, em dado momento o indagou se em suas viagens não levava na carteira como recordação a imagem de sua esposa. Já antevendo a argumentação do sacerdote, sua resposta foi positiva, mas – acrescentou em tom de burla –, nunca se ajoelhava diante dela para realizar algum pedido, e isto é o que fazia a grande diferença. E por aí foi a entusiasmada pregação…


A resolver questão tão simples primeiro será útil notar que quando pastores utilizam o “método do grito”, não fazem outra coisa que desviar a atenção do que de fato está em jogo: eis a tática de muitos sofistas modernos, tirada de manuais de marketing político e religioso (não raro, muito utilizada em governos populistas e demagogos[1]).

Os membros das igrejas protestantes ao se deixar levar ainda que de boa-fé por esses sofismas, não percebem quão gritantes contradições lhes são incutidas ao se tentar defender o indefensável. Os engodos são sempre os mesmos, trocam apenas de roupa. No vídeo em pauta[2], as contradições do pastor começam logo ao dizer que aceita a expressão “imagem”, o que leva à conclusão de que o problema afinal não são imagens, mas imagens católicas. Quando se acusa um católico de adorar imagens, pois Deus “as proibiu que se fizesse”, não se está fazendo outra coisa que declarar-se duplamente ignorante. Ou malicioso. Para compreender o tema bastará a formulação de duas simples perguntas: imagem é o mesmo que ídolo? E prostrar é o mesmo que adorar? Na primeira questão, o caso é se os substantivos são iguais, na segunda, os verbos. Teremos de aclarar o elementar se quisermos entender o fundamental. Não será difícil.

Peguem então os protestantes não a sua bíblia, mas o dicionário. Consulte os termos. Muito bem, pode ver que em essência se tratam de coisas diferentes. Comecemos pelos substantivos: Deus, que não é incoerente, nem pode engana-se ou enganar-nos, jamais poderia “dar na trave” ou permitir que houvesse a mínima contradição com o que fez e mandou que se fizesse. Por isso jamais proibiu a confecção de imagem. Se fosse assim o pastor em questão e tantos outros ficariam em maus lençóis ao ter de vender seus produtos utilizando sua imagem, como fazem há um bom tempo. O que sempre foi proibido por Deus é que se fizessem ídolos, isto é, um objeto (que pode ou não ser uma imagem) com a finalidade de adoração (substantivo que só pode estar associado ao próprio Deus, como veremos à frente). Portanto, tudo que se colocar no lugar de Deus, uma pessoa (a própria esposa neste caso), uma novela, artistas, pastores, diversão, dinheiro e mesmo a Bíblia se tornará um ídolo (no caso desta última sua adoração será denominada bibliolatria). As provas? Então, agora sim pegue, não a sua, mas uma Bíblia de verdade e veja que:

  1. a) Deus nos fez “à sua imagem” (cf. Gên I, 26s; Sab II, 23 e Eclo VII, 1);
  2. b) Deus mandou fazer a imagem de uma serpente em bronze (Num XXI, 4-9) e a ela olhar a fim de evitar a morte física; esta imagem simbolizaria o próprio Cristo, que nos livraria da morte espiritual ou eterna (cf. Jo III, 14s). Também por este motivo os católicos carregam, olham (e veneram) a imagem de Cristo crucificado, como visto anteriormente[3];
  3. c) Deus mandou fazer imagens de querubins, animais e até vegetais (cf. Ex XXV, 17-22; 1 Re VII, 36) e que as pusesse na arca da aliança e no templo (cf. 1 Re VI, 23-29 e VII, 23-26);
  4. d) Deus mandou fazer várias imagens e objetos de ouro, prata e pedras preciosas para adornar o templo, o que serve também como resposta aos que se sentem incomodados com a riqueza da Igreja (cf. 1 Par XXVIII, 10-21 e 2 Par III, 1-14 – notar ainda nesta última passagem a função dos sacerdotes e levitas com relação ao templo)[4];
  5. e) Deus mandou construir um templo como imagem da morada celeste (cf. Sab IX, 8).

Há mais, mas para um bom entendedor… Bem, passemos então aos verbos.

O problema, melhor, a solução será da mesma forma definir o que é o quê para não confundir gato com lebre, pois é feio tentar se vender um pelo outro, mesmo que seja por ignorância (como também já foi abordado e se abordará mais adiante). Embora o verbo prostrar possa vir acompanhando ou significando adorar, aquele é diferente deste, a exemplo do café com o leite: mesmo unidos e parecendo uma só coisa, permanecem líquidos distintos. Conhecer essa distinção, se não se tornar um passo para o entendimento definitivo da questão, ao menos facilitará e muito o êxito em redações de concurso ou vestibular. Vamos às provas:

  1. a) Jacó se prostra diante do irmão (cf. Gên XXXIII, 3);
  2. b) Os irmãos diante de José (cf. Gên XLIII, 25s);
  3. c) E José diante de Jacó (cf. Gên XLVIII, 12);
  4. d) Josué se prostra com os anciãos diante da arca (cf. Jos VII, 6);
  5. e) Davi se prostra diante de Saul (cf. 1 Sam XXIV, 9);
  6. f) E Abigail diante de Davi (cf. 1 Sam XXV, 23s);
  7. g) Por fim, a promessa de Deus de que em todo tempo haveria quem se prostrasse – logicamente por reverência, não adoração – ao representante de Cristo na terra, seu Sumo Pontífice, que a partir do Novo Testamento inicia-se em Pedro e segue-se com os Papas (cf. 1 Re, II, 35s).

Os católicos, portanto, não consideram a imagem um ídolo. Não se prostram com finalidade de adoração ou súplica a elas, mas somente de súplica (ou agradecimento) a quem representam, pelo simples fato de não estar presentes fisicamente e do homem, parte material e parte espiritual, ser dotado de sentidos sensíveis[5]. E tanto ao se prostrar como ao suplicar algum favor (intercessão) em nada estão em desacordo com a Palavra de Deus, pois estas coisas e pessoas não são postas em seu lugar, como veremos adiante[6]. Pode ocorrer que alguém assim o faça, mas não será a Igreja ou sua doutrina que lhe darão o respaldo, ao contrário do que induz o protestantismo em relação à bibliolatria, ou mesmo à pastolatria, ainda que não se assuma. E não só. Também os protestantes incorrerão em erro semelhante ao realizar o antibíblico Livre exame, pois se colocarão à frente da Igreja[7], pondo-se assim em clara desobediência a Deus. Todo protestante, por (sua) definição doutrinária, é uma igreja ambulante, uma vez que o livre exame que inventou e adota o põe, por conta e risco, na condição de intérprete e sacerdote divinos. Acima da Igreja, acima mesmo de Deus.

O pastor dizia que não se prostrava diante da imagem da esposa para lhe pedir alguma coisa. Ele (na melhor das hipóteses) confundia – e confundia seus membros – imagem com ídolo, prostração com adoração, mediação junto ao Filho com mediação junto ao Pai[8]. Só não haverá confusão na hora de mandar fazer a sua imagem para vender os seus produtos, e a si próprio.

 

Em tempo: 1) O livro da Sabedoria, em seu capítulo XIV, dá uma bela descrição da confusão que não se deve fazer entre a imagem e o ídolo, entre o culto de reverência (com prostração) e o culto de adoração. Valerá a pena conferir.

2) Há ainda grande incompreensão na questão das proibições bíblicas, que à maneira das leis e regras sociais, podem ser absolutas ou relativas. Com relação às imagens, se as encontramos inseridas no âmbito das proibições, jamais o são de forma absoluta, mas somente quando utilizadas como ídolos. Assim que Deus, em determinados momentos, as proíbe de forma relativa, enquanto se as constroem e utilizam para fins maus e desordenados.[9]


NOTAS:

[1] Muito apropriado a esse respeito a recente afirmação do Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, transcrita na epígrafe do item sobre a Oração: “Deus é silêncio e o demônio é barulhento” (http://www.sensusfidei.com.br/2016/10/09/cardeal-sarah-deus-e-silencio-e-o-demonio-e-barulhento/). Acesso em 10/10/2016.

[2] https://www.youtube.com/watch?v=Ko3luN6muS4 (Acesso em 03/02/2016).

[3] Ver capítulo IV.

[4] “Par” é a abreviatura de Paralipômenos, outro nome para o livro das Crônicas.

[5] Para que fique claro, a súplica com adoração somente se aplica a Deus. A súplica apenas, aos anjos e santos, dos quais Nossa Senhora tem a primazia. De toda forma, as imagens servem tão somente para que os sentidos sejam auxiliados na elevação do pensamento, o que não há condenação ou contradição com as Escrituras.

[6] Capítulo XVII.

[7] Quem recebeu as Chaves para “ligar e desligar”, merecendo por isso ser ouvida (cf. Lc X, 16; Efe IV, 11-14).

[8] Ver nota 6.

[9] https://caiafarsa.wordpress.com/imagens-em-templos-prostestantes/ (Acesso em 30/05/2017). Neste link pode-se presenciar inúmeras imagens de imagens protestantes com, inclusive, pessoas se prostrando diante delas. E se vale para algumas seitas e não vale para outras, cabe novamente a pergunta: onde está a “unidade no fundamental”?

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