Um bispo fala: entrevista a Mons. Schneider pelo Pe. Javier Olivera Ravasi

Buenos Aires, 1º de Outubro de 2017

Tradução de Airton Vieira – Aproveitando a visita que Mons. Athanasius Schneider fez à Argentina, no marco do XX Encontro de Formação Católica organizado pelo Círculo de Formação San Bernardo de Claraval, tivemos a oportunidade de entrevistá-lo graças à generosidade de seus organizadores.

Queremos aproveitar também para agradecer de público, não só à Sra. Virginia Olivera de Gristelli e seu esposo, Jorge, como também aos jovens que, abnegada e sacrificadamente, organizaram um dos encontros católicos mais importantes de nosso país.

Quanto à entrevista, oferecemos aqui, o vídeo e a transcrição que, cremos, vale a pena dedicar um tempo para ouvi-la, a fim de,

Que no te la cuenten[1]

Humilde, sereno e alegre, Mons. Schneider nos recebe durante uma visita de apenas três ou quatro dias por Buenos Aires. Nos presenteia seu tempo e, como as almas grandes, não têm pressa.

Pe. Javier Olivera Ravasi: Algum tema que deseje obviar? –lhe digo antes de começar a entrevista.

Mons. Schneider: “Nada há oculto que não seja revelado”; pergunte o que queira –responde em um correto italiano.


Pe. Ravasi: 
Bom –lhe digo– mas antes uma pergunta meio incômoda: o senhor é bispo auxiliar de Astana, Cazaquistão… “mas vive viajando” –dizem por aí…

Mons. Schneider: É verdade: é que isso mesmo me pediu meu arcebispo, Mons. Tomasz Peta, de quem dependo. Sucede que, especialmente nestes tempos de confusão, é importante que os bispos falem, especialmente quando a grei da qual sou auxiliar é tão pequena e está bem cuidada (apenas 0.5 % de sua diocese se declara católico).


Pe. Ravasi: 
Comecemos então. O senhor provem de um país onde há grande quantidade de população muçulmana. Quais crê que deveriam ser, em um continente como a Europa, os critérios de aceitação de imigrantes não cristãos?

Mons. Schneider: O primeiro que devemos ter em conta é o fenômeno acerca desta denominada “imigração” (que não é uma imigração, mas uma suposta imigração), porque os fatos demonstram que estes denominados imigrantes são fruto de uma política dos poderes globais, uma imigração artificial feita para transportar uma grande quantidade de muçulmanos, especialmente muçulmanos, aos países cristãos da Europa.

É evidente, para aqueles que ainda usam sua inteligência e veem com realismo este fenômeno, que se trata de uma ação política regional e global feita pelos grandes poderes mundiais para, em uma ulterior etapa, descristianizar a Europa. Se trata de misturar os povos para que a Europa perca sua identidade, que não é outra que a identidade cristã. Esta guerra no Meio Oriente, por exemplo, foi feita pelo denominado Estado Islâmico, que foi financiado e apoiado pelos E.U.A e a União Europeia, por meio de alguns países árabes. Se fez este fenômeno migratório e a coisa mais natural era que estes imigrantes deveriam ter sido recebidos pelos países muçulmanos vizinhos, que são ricos –Arábia Saudita e outros, por exemplo. Isto seria o mais lógico e o mais humano, porque desde o ponto de vista moral, em toda imigração, se deve evitar tirar as pessoas de seus ambemtes naturais, de sua mentalidade, de sua história, etc., e este é um grande erro em que os políticos estão incorrendo, evidentemente com base em um programa.

Certamente, entre estes imigrantes há também pessoas inocentes que devem sofrer e estão sendo usadas como instrumentos, mas a maioria são homens jovens, que deixaram suas famílias. Que refugiado foge de seu país deixando sua mulher e seus filhos? Nenhum homem faria isto. O homem deve permanecer ali onde está sua família para defendê-la. Esta é uma nova demonstração de que este fenômeno da denominada “imigração” é uma ação política programada.


Pe. Ravasi:
 Nos encontramos ante o centenário das aparições da Virgem de Fátima. Nossa Senhora disse então que, se a Rússia, com todos seus erros doutrinais, ideológicos, etc., não se convertia, os dispersaria por todo o mundo. O senhor crê que a ideologia de gênero, avalizada pelo marxismo cultural e mesmo o progressismo na Igreja, poderiam ser consequências do que a Virgem profetizou em 1917?

Mons. Schneider: Como sabemos, a Virgem disse que a Rússia difundiria seus erros por todo o mundo e, de entre os primeiros erros, se encontrava o de tentar converter em ateia a sociedade. É uma coisa única na história da humanidade. Jamais houve na história, um povo ou uma cultura ateia; incluso entre as mais primitivas.

O segundo, aparte do grandíssimo erro o de querer fundar uma sociedade sem religião, ateia é o materialismo, ou seja, que toda a vida da sociedade consista na coisa temporal. Se trata de uma radical exclusão da transcendência, da sobrenaturalidade.

O terceiro erro que a União Soviética implantou foi o aborto. Como sabemos, a URSS foi o primeiro país do mundo que impôs, em 1920, o aborto: a destruição da vida.

Estes erros se difundiram também nos países de tradição cristã: o aborto, o materialismo radical, a exclusão da transcendência, do sobrenatural, a imersão no mundo meramente material e, como o senhor disse, o marxismo cultural, que foi criado na Europa, no tempo da Guerra Fria; incluso aqui na América Latina, a teologia da libertação foi uma criação e um erro da URSS, que se deu aqui, com consequências desastrosas da destruição da vida espiritual verdadeiramente católica nos países latino-americanos.

Também a denominada “teoria de gênero” que é a última consequência do marxismo cultural.

No âmbito da Igreja, também os erros da Rússia, do comunismo, do marxismo, têm entrado de um modo sempre mais evidente e mais força na vida da Igreja. Começando com o Concílio Vaticano II, e especialmente depois do Concílio, se deu no âmbito da diminuição do aspecto sobrenatural da vida da Igreja, da aproximação, da pastoral, no fundo uma concentração nos aspectos puramente temporais e materiais. Hoje constatamos quase o cume desta atitude naturalista, materialista na pastoral e na atividade da Igreja, com grande difusão, comprovando que estes erros entraram também na vida da Igreja.

 

Pe. Ravasi: Há umas semanas foi publicado o Motu proprio “Magnum Principium”, que outorga às Conferências episcopais nacionais a faculdade de realizar as traduções dos livros litúrgicos às línguas vernáculas. Esta possibilidade não poderia chegar a atentar, se as traduções não estivessem bem feitas, contra a unidade da Igreja? No mesmo sentido qual o senhor crê que seria a solução frente ao caos desatado após a última reforma litúrgica?

Mons. Schneider: O senhor fala justamente do caos litúrgico. Vivemos há mais de cinquenta anos em uma anarquia litúrgica da Igreja. Isto contradiz, justamente, a nota da unidade da Igreja porque não somente temos a unidade na Fé, que é a lex credendi, mas a Igreja deve também uma unidade na lex orandi, na liturgia. Certamente existem, como sempre existiu na Igreja, vários ritos litúrgicos; isto é belo e é a riqueza da Igreja, mas o perigo que temos hoje e que já experimentamos, é que as traduções às línguas vernáculas, em algumas regiões linguísticas, têm produzido um dano que tocam inclusive a Fé. As traduções, por exemplo, eram tão defeituosas em alguns países que o Papa João Paulo II teve de intervir publicando o documento Liturgiam authenticam onde a Santa Sé precisava com muita claridade como se devem traduzir certos conceitos teológico-dogmáticos na liturgia. Porque na liturgia proclamamos nossa Fé com fórmulas dogmáticas. Um grande trabalho, neste sentido, é a tradução anglófona do Missal romano, segundo as indicações do Papa João Paulo II, à língua inglesa, que, desde uns anos, demostra ser um ótimo exemplo de fidelidade na tradução. Mas agora, em minha opinião, este novo documento pareceria ser um passo atrás, de novo, dentro da confusão, vendo um perigo real contra a unidade nas coisas essenciais que temos na liturgia, no momento em que cada Conferência episcopal decida como traduzir seus próprios livros, especialmente nas expressões dogmáticas.

Penso que a Igreja, a Santa Sé, deveria, ao contrário, ser mais vigilante, e dar às Conferências episcopais, normas concretas, como sucedeu com Liturgiam authenticam de João Paulo II. Segundo minha convicção, então, não vejo a necessidade de realizar este novo documento, porque bastaria o de João Paulo II.


Pe. Ravasi: 
O Sínodo das famílias trouxe algumas dificuldades e divisões dentro dos mesmos bispos intervenientes. Por outra parte a exortação pós-sinodal Amoris laetitia, com a interpretação do mesmo Papa Francisco (segundo a Carta enviada aos bispos de Buenos Aires) pareceria ser um câmbio na doutrina da Igreja, a respeito da recepção da comunhão por parte daquelas pessoas que se encontram em uma situação objetiva de pecado. Alguns cardeais colocaram algumas dúvidas (dubbia) ao Papa sobre o tema; incluso vários teólogos, bispos e destacados acadêmicos, realizaram uma correção filial (Correctio filialis). Para muitos leigos é difícil entender que a Igreja esteja dando estes câmbios tão abruptos, e, ao mesmo tempo, se perguntam se é lícito e legítimo para um bispo, para um cardeal ou para um simples leigo, perguntar ou até corrigir o Santo Padre sobre estes temas. Qual é sua opinião a respeito?

Mons. Schneider: A primeira coisa que devemos dizer é que é evidente e inegável que o documento Amoris laetitia tem causado uma grande confusão. Há Conferências episcopais que, de fato, permitem o aceso à comunhão aos divorciados não arrependidos, isto é, que querem continuar vivendo em adultério. Porque isto é adultério! Devemos chamar as coisas por seu nome. Outras Conferências episcopais o negam. Alguns bispos diocesanos o fazem e outros não. E assim temos uma situação evidente, uma contradição diametral, frontal, entre uma Conferência episcopal e outra, entre um bispo e outro, e isto não é a Igreja Católica, porque sobre estas coisas, que se referem à sacralidade e indissolubilidade do matrimônio, a Igreja deve falar com uma só voz e atuar coerentemente com a Fé. Se cremos no dogma divino da indissolubilidade matrimonial, a Igreja deve agir conforme e coerentemente com esta Fé; o contrário vai contra o mesmo espírito do Evangelho.

A Igreja jamais teve esta atitude que implica dizer uma coisa e fazer outra e isto é evidente hoje; não podemos continuar assim, porque a pastoral -a disciplina, neste caso- toca as coisas mais santas da Igreja, começando pela Eucaristia, evidentemente e o sacramento, a sacralidade e a indissolubilidade do matrimônio. E assim, com estas normas já introduzidas como a aplicação da Amoris laetitiacom uma linguagem às vezes sofística, permite de fato viver em adultério e reconhecer, não em teoria mas sim de fato, o divórcio. E isto é uma coisa perigosa e um grande dano e, ante isto, nenhum bispo que ainda tenha consciência de sua responsabilidade, não só a respeito de sua diocese, mas de toda a Igreja (porque os bispos são ordenados, segundo a fórmula da consagração, não só para sua diocese, como diz o Vaticano II) deve deixar de velar pelo bem da Igreja toda, como membro do Colégio Episcopal. Incluso os mesmos fiéis, que são membros da Igreja, como membros de um mesmo Corpo (porque bispos, papas, hierarquia e fiéis, são uma só família), como em uma família, se observam coisas perigosas ou danos substanciais para a vida desta família ou deste Corpo, os membros que veem, devem dizê-lo, exteriorizá-los, e até perguntar. E isto é uma coisa completamente legítima e mesmo conforme o espírito do Concílio Vaticano II, que alentou aos bispos a agir junto com o Papa, conforme um espírito colegial. E isto é colegialidade: se os bispos veem que isto é um perigo e que algumas expressões de Amoris laetitiae são objetivamente ambíguas, e que têm sido a causa destas interpretações e aplicações contrárias que danam a Fé, devem neste espírito de colegialidade, alçar a voz e dizer ao Santo Padre estas coisas. Isto a respeito das dubbia.

Mas o mesmo têm feito os fiéis leigos. Se os filhos maiores de uma família veem um risco para a mesma enquanto que seu próprio pai não o vê, eles devem indicar, com reverência e respeito, os perigos para o conjunto. Por isso, estas formulações –tanto as dubbia como a Correctio filialis­- devem ser feitas sempre com respeito pelo oficio do Papa, que é a cabeça visível da Igreja, como sucedeu tanto em uma como em outra e por isto ditos atos não só são legítimos como, ao meu entender, meritórios e louváveis. Certamente os historiadores futuros da Igreja aplaudirão esta ação dos leigos. E mais, ao meu juízo, os fiéis têm atuado segundo o espírito do Concílio Vaticano II que os alenta a participar ativamente, com suas próprias contribuições, na vida da Igreja; e este é um belo exemplo de como se está aplicando o espírito do Concílio Vaticano II, sobre a consciência dos leigos que também têm certa responsabilidade no bem da Igreja.


Pe. Ravasi:
 O cardeal Ratzinger, no ano 2005, antes de sua assunção como Bento XVI, disse que a Igreja parecia um barco que vazava água por todas as partes”. O Papa Francisco, por seu lado, apenas assumido, disse que seu pontificado não seria muito longo. Ante esta divisão que parece existir agora na Igreja em sua esfera hierárquica, que podemos esperar dos próximos anos da Igreja?

Mons. Schneider: Há uma coisa que é certa e é que a Igreja sempre se encontra nas mãos seguras de Cristo. Ele é o verdadeiro chefe, o verdadeiro capitão deste barco onde já entrou tanta água; não o Papa. O Papa é um capitão vigário, vicarius Christi, mas o verdadeiro capitão, o capitão oficial e verdadeiro deste exército, deste barco, é Nosso Senhor Jesus Cristo quem sempre cuidará e defenderá Sua Igreja. E Cristo permite às vezes –de fato o tem permitido outras vezes– grandes crise na Igreja, grandes perigos, para intervir logo. E assim se encarregará de nosso tempo ante esta grande confusão e obscuridade que vivemos nesta época. Isto é uma coisa certa. Ademais, a Virgem, nossa Mãe do Céu, é a Mãe da Igreja e se preocupa por Ela.

Esta é a primeira coisa.

A outra coisa é que, nos momentos mais difíceis e confusos da Igreja, devemos tentar ter uma visão sobrenatural. Porque a Igreja é algo sobrenatural.

Devemos sempre manter-nos firmes e fortes na Fé imutável da Igreja. E esta Fé a conhecemos: é a Fé e a prática imutável da Igreja (pontualmente, neste caso dos divorciados, por exemplo). E sabemos que estamos seguros na Fé, lendo os textos dos Papas, dos Concílios, etc., que se encontravam sempre no mesmo espírito. Não havia antes uma ruptura na prática substancial da Igreja a respeito dos sacramentos. E todo isto foi sintetizado no Catecismo, tanto nos anteriores ao Concílio Vaticano II como no posterior a este, no que concerne a estas coisas mais substanciais. Todas estas coisas as sabemos e a elas devemos ater-nos e, se em algum momento alguns sacerdotes, bispos ou cardeais contradizem estas coisas que a Igreja sempre ensinado e praticado, não devemos escutá-los. Devemos escutar a voz da Igreja; porque a Igreja não é o Papa.

Em efeito, o Papa não pode dizer: “Eu sou a Igreja”, como disse, na França, o rei Luís XIV: L’état c’est moi, “o Estado sou eu”. O Papa é também um membro da Igreja; ainda que seja a cabeça visível, é um membro. E ele é o primeiro que deve obedecer as doutrinas transmitidas até ele. Sua obrigação é a de ser um fiel administrador, não um inventor de coisas novas. Este é seu oficio e o de todos os bispos: fiéis administradores, como disse Nosso Senhor no Evangelho, “quem é o fiel administrador?” (Lc 12,41). Estes são os bispos, o Papa e, de modo subordinado, os sacerdotes.

Se em alguns momentos, lamentavelmente, representantes da hierarquia contradizem o que a Igreja sempre tem feito ou tem dito de modo contínuo, nós como sacerdotes, bispos ou leigos, devemos dizer com respeito e reverência: “Eminência ou Excelência: isto que o senhor está fazendo ou dizendo, contradiz a voz da Igreja de sempre”.

E este é o peso maior: a voz e a prática da Igreja durante dois mil anos têm mais peso que uma nova voz, abrupta e de ruptura, ou uma prática efêmera como hoje tantas vezes observamos. E assim devemos dizer com total humildade e segurança interna: “eu sei em Quem cri”, scio cui credidi (2 Tim 1,12); nisto se dá a firmeza e a paz interior em meio da confusão.

Por último quero dizer, ainda que seja em realidade o primeiro quanto ao valor, que devemos nestes tempos de crise ter nosso refúgio na oração e o sacrifício. Esta é nossa força maior. A Igreja se renova, no fundo, com a oração e os sacrifícios de tantos de seus membros, especialmente os mais pequenos. E isto sucede hoje e é nosso consolo: que a Providência divina use, em meio desta tremenda confusão que está passando na Igreja, dos pequenos, das almas vítimas e sacrificadas que renovem a Igreja por meio do trabalho que faz o Espírito Santo.

Por isto devemos ter confiança no futuro da Igreja.

 

* Entrevista realizada pelo Pe. Javier Olivera Ravasi para Que no te la cuenten

______________

Fonte: http://www.quenotelacuenten.org/2017/10/06/obispo-habla-entrevista-mons-schneider-p-javier-olivera-ravasi/


NOTA

[1] Que não te enganem. Trocadilho com o nome da página web. (NdT)

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