Capítulo XVIII – Mãe de quem? “Do meu Senhor”! [Nossa Senhora]

“Ó Santa e imaculada virgindade, não sei com que louvores Vos possa exaltar; pois quem os céus não podem conter, Vós O levastes em vosso seio”

Os pontos mais controversos entre católicos e protestantes, como não poderia deixar de sê-lo, são os que tocam diretamente Mãe e Filho. Como nada há de oculto que não venha cedo ou tarde revelar-se, vamos presenciando nos dias atuais a “rédea solta” e desenfreada do ódio a este divino par, e de forma cada vez menos oculta ou disfarçada. Sinais dos tempos! No que diz respeito ao Filho, o mencionarei no próximo capítulo. Em relação à Mãe, basta com os exemplos das inúmeras imagens de Maria que como nunca vêm sendo profanadas, deste a destruição física por parte de protestantes, muçulmanos e pagãos[1], até sua nefasta utilização em apresentações “artísticas” e, o que é pior, em reuniões e cultos “ecumênicos” com direito à (triste) presença de nossos prelados. Nada que não se esperasse do pai das trevas e seus filhos.

À título de introdução, para se ter uma pequena ideia, nos estudos sobre Nossa Senhora, onde a Teologia destinou uma disciplina específica por nome Mariologia, há páginas já na casa dos milhares. E ainda não se disse tudo. Outrossim, depois do Santo Sudário de Turim (IT), o objeto mais estudado em todo o mundo é a manta de San Juan Diego na que se vê estampada, há mais de 500 anos, uma imagem da Virgem denominada de Guadalupe (ME), de origem sobrenatural. E isso nos diz alguma coisa.

Não poderia, por isso, ficar de fora deste trabalho tema tão candente. Aqui vai, com a devida vênia, meu “óbolo da viúva”.

Uma mãe segundo o real conceito do termo, em nenhum momento desejaria “aparecer” no lugar do filho. Isto, contudo, ocorrerá em civilizações como a nossa, onde predomina o pensamento antropocêntrico e pagão, em que as mulheres por ímpeto, vaidade ou algum complexo pré-fabricado começam por se sobrepor aos maridos e acabam por fazê-lo também em relação à prole. Mesmo ao ponto de eliminá-los. Tal atitude, porém, jamais refletiu o mo­delo de mãe como o Criador o pensou. De modo especial essa atitude jamais se associou ou poderia vir associada a Virgem Maria, objeto deste capítulo, pois toda a vocação desta Mãe, tudo o que fez e segue fazendo resume-se em sua célebre frase: “Fazei tudo o que êle vos disser” (Jo II, 1-12). E o Filho a atenderá, como sempre a atendeu, mesmo antes da hora.

Com o decorrer do tempo fui percebendo que tentar falar biblicamente de Maria aos protestantes (que dizem seguir a Bíblia) não produzia a com­preensão merecida. Mostrar passagens sublimes escritas ao louvor à Mãe de Deus e nossa Mãe, sua importância e dignidade, além do papel crucial na vida do Filho e, por consequência, de toda a humanidade, dentro de um mínimo de exegese e hermenêutica, caíam no vazio como “a pérola aos porcos”[2] ou “as coisas santas aos cães”[3], o que não deixava de ser lamentável.

Mas nessas horas vinha sempre em auxílio a admoestação de S. Paulo, a da insistência “a tempo e fora de tempo” (cf. 1 Tim IV, 1-4)… Pois bem, tente-se novamente, pois o tema, e as almas, merecem. Assim, convido-os a seguir caminho na abordagem desse que, ao tempo em que é um dos mais sublimes, é ainda um dos pontos de maior incompreensão entre os protestantes, pelo que a maioria deveria, à imitação dos judeus exilados, sentar e chorar às margens dos rios[4], pois muitos são os erros e injustiças que come­tem contra tão excelsa e sublime criatura.

Chesterton dizia que a educação compulsória negava às pessoas comuns o seu senso comum. Mesmo os analfabetos (sem deméritos) já deram conta do fato de que a ateia e materialista educação moderna – ainda que não se assu­ma como tal – não faz outra coisa que deseducar, ao ponto de conseguir minar o senso comum de grande parte, inclusive, inteligente e estudada. Daí que concomitante ao curto circuito intelectual crescente ocorrem as crescentes divisões das seitas protestantes. E nelas – lamentamos –, muitos com boas intenções, as mesmas que quiçá vão enchendo o Inferno. De onde a necessidade da reta compreensão, movida por uma boa disposição à verdade, uma vez que entender o fato de Maria ser o canal e a ponte por excelência deixada por Jesus para irmos a Ele torna-se questão sine qua non para nos tornar cristãos segundo o coração de Cristo.

Das inúmeras formas de se apresentar esta ilustríssima figura de nossa história, optei por fazê-lo a partir dos dogmas definidos pela Igreja, os quais são irrevogáveis, irrefutáveis e irremovíveis, em que pese algumas teologias vagabundas que vivem passeando por aí. Peço então ao menos um pouco de boa vontade para iniciarmos pelo dado fundamental acerca desta mãe singular: Maria, mãe de Deus.

Com um diálogo, um testemunho insuspeito e uma pequena passagem das Escrituras (para mostrar “onde está na Bíblia”), apresento este que foi o primeiro dogma definido pela Igreja com relação a Maria Santíssima[5] (grifos meus):

O diálogo. Um dia, pelos corredores de uma escola em que lecionava, um aluno protestante ou­vindo falar-me em Mãe de Deus protestou, com raiva mal disfarçada: “A Maria não é mãe de Deus!” – “A” Maria não, mais respeito!, contestei-lhe. “Maria não é mãe de Deus!” – Não?, então de quem ela é mãe? “De Jesus!” – Sim? E Jesus é quem? “… Deus…” – Muito bem, só pra saber. E desta hora em diante não mais o ouvi protestar.

O testemunho. “Quem são todas as mulheres, servos, senhores, príncipes, reis, monarcas da Terra comparados com a Virgem Maria que, nascida de des­cendência real (descendente do rei Davi) é, além disso, Mãe de Deus, a mulher mais sublime da Terra? Ela é, na cristandade inteira, o mais nobre tesouro de­pois de Cristo, a quem nunca poderemos exaltar bastante…”. Esclarecedor, pois se mesmo os demônios reconhecem a excelência e importância desta criatura, e tremem, por que não o faria… Martinho Lutero?[6]

A passagem. Claro que Lutero não poderia expressar-se sobre Maria de outra forma, ele que se intitulava o “Doutor Martinho Lutero”, e doutor em Escrituras. Afinal, não por acaso Isabel, a prima e mãe do Precursor, sob inspiração direta do Espírito Santo chamará sua jovem prima, sem sequer saber de sua gravidez, de a “Mãe do meu Senhor” (Lc I, 43).

O que nos remete ao segundo dogma mariano[7].

[Uma pequena observação. Há mulheres que devido situações atípicas acabam, por disposição divina, sendo mães de um único filho, como podemos ver nos casos de Sara/Abraão ou Isabel/Joaquim. Geralmente tais filhos acabarão por exercer uma missão singular na história da salvação, como foi o caso de Isaac e João Batista; para ficar nestes exemplos.]

Há muito tempo uma dessas mulheres soube que iria ser mãe, em uma situação mais que atípica. E também de maneira atípica, pois não conhecia varão apesar de já estar noiva[8]. O filho único também possuía sua atipicidade, uma vez que além de único, era Deus.

Façamos então um pequeno exercício de imaginação reflexiva, se preferir, de reflexão imaginativa. Imagine-se uma jovem, virgem, noiva de um homem mais velho e… grávida. Numa sociedade que apedrejava adúlteras, porque não se podia ter con­tato íntimo com a noiva até o casamento (bons e sábios tempos!). Imagine-se este filho, gerado sem a par­ticipação de homem, cuja incumbência seria a mais difícil e excelsa exercida por qualquer ser que já passou ou passará por sobre a terra. Imagine-se agora a criança no meio de seus pais, vivendo, se desenvolvendo “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc II, 52); para eles não só como filho, mas como Criador e Senhor, a cada dia revelando algo de extraordinário no seio daquela família. Imagine-se esta mãe tendo de preparar este Menino-Deus para a sua missão, pois se Deus quis nascer de uma mulher, esta certamente não seria mera “barriga de aluguel”. Imagine-se que por não ser escolhida por capricho do destino teve, para receber a dignidade de se tornar mãe do Verbo encarnado, de ser purificada de todo o pecado mesmo antes de nascer[9], a fim de que fosse adornada das virtudes necessárias à idiossincrática missão. Imagine-se, não obstante, esta mãe ciente desde a Anunciação do que ocorreria com seu filho (sua Paixão e morte), sendo ela uma boa conhecedora das Escrituras como nos revela no Magnificat (Lc I, 46-55). Seria, portanto, diante de tudo isto e do ponto de vista meramente humano, justo, correto, normal que tal mulher tivesse outros filhos, tendo de ter para com este uma responsabili­dade (mais que) especial, pois ele (mais que) exigia?

Mas aqui também haverá de pensar em outra correlata disposição divina, pois tendo necessariamente de ser uma mulher diferente de todas as outras mulheres, ao ponto de proclamar sob o influxo do Espírito Santo que “todas as gerações me chamarão bem-aventurada”, seria justo, correto, normal que tivesse qualquer um por esposo e pai adotivo deste Menino- Deus? Este esposo, portanto, também incomum ao ponto do Evangelho chamá-lo um “justo”[10] – palavra de significado muito superior ao que hoje conhecemos –, se atreveria a tocar a porta selada pela qual Deus, ao passar lacrou para todo o sem­pre[11], pois foi a única que gerou não “… do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo I, 13), arriscando assim a dividir a glória com o Criador, que diz: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; eu não darei a outro a minha glória…”[12]?

Às sociedades decadentes é difícil lidar com a virgindade, dentro e fora do casamento. Não sabem – e seria arriscado rejeitar se o soubessem – que para este se concretizar não necessariamente deva existir a con­sumação carnal (o sexo), criado por Deus primeiramente à procriação. Durante muito tempo a Igreja, com a seriedade que lhe é peculiar, se de­bruçou sobre o tema da Sagrada Família, modelo a todas as demais. O casamento, ao ser elevado por Cristo à condição de Sacramento, passa a ser regulado pela Igreja. E será ela a definir, em harmonia com a Lei natural e divina, que para haver legítimo matrimônio três bens deverão existir: o amor conjugal (≠ de sexo conjugal), a perfeita fidelidade (artigo de luxo em um mundo hedonista como o nosso) e a prole (cada vez mais sacrificada no altar da vaidade, egoísmo e desamor). Tais quesitos nesta Sagrada Família nunca faltaram[13].

Não é preciso voltar ao que muito já foi dito sobre o significa­do da palavra “irmãos” nas Sagradas Escrituras, que ainda hoje é deturpado por pastores e intérpretes da Bíblia, muitos dos quais mal conhecem sua própria lín­gua[14]. Bastaria, para encerrar a questão, com indagar: se a Virgem Maria teve outros filhos “onde está na Bíblia” os irmãos de Jesus quando: 1) Ela e S. José vão à Páscoa em Jerusalém, em que o Menino já contava 12 anos[15] (cf. Lc II, 41-51)? 2) Quando são convidados – Ele e sua Mãe somente – às Bodas de Caná (cf. Jo II, 1s)? 3) Quando Cristo estava pregado à cruz, sendo que o costume e as leis exigiam que as viúvas se as entregassem aos cuidados do irmão seguinte ao mais velho, ao morrer este (cf. Jo XVI, 26s)?

Supor então que Maria tivesse outros filhos é antes de tudo um insulto a Deus, que não divide a sua glória com ninguém! Dê-se, portanto, voz a São Jerônimo, quem nos fará a gentileza da conclusão: “… também o próprio José foi virgem por causa de Maria a fim de que, do casamento virginal, o Vir­gem Filho nascesse”[16].

O que nos remete ao terceiro dogma mariano[17].

Os mal-entendidos em torno da Mãe de Deus costumam superar-se a cada nova heresia ou geração de soberbos, maliciosos, covardes ou ignorantes. Entre tantos desentendimentos, não se en­tende também – por ignorância? soberba? malícia? covardia? – que em função do Filho, a Mãe teve de nascer sem o pecado original, de onde procede o título a Ela con­ferido de “Imaculada Conceição”. E uma vez nascendo sem este, obviamente será livre de todo e qualquer pecado atual, consequência do primeiro. Maria teve uma conceição (concepção) imaculada (sem mácula) porque como daria abrigo e constituição física ao Homem-Deus jamais poderia ser um “vaso impuro”, com algum vestígio de mancha (mácula), pois, como dito acima, por ela passaria Deus e dela receberia sangue, pele e ossos. O DNA de Cristo seria o dela. O leite que O amamentaria seria o dela. E como não bastasse, em seguida teria também de ser criado e educado por ela, ainda que com o auxílio de um pai adotivo.

Mas alguém insistirá: “então por que chamou a Deus de seu salvador”[18]? E arrematará, cheio de razão: “a Bíblia é clara em dizer que todos pecaram[19]…”. Ao que respondemos: “a Bíblia é clara” em alguns casos. E mesmo nestes consegue ainda ser manipulada pelos doutores da lei e fariseus de todos os tempos, que parecem nunca lembrar que “… a letra mata” (2 Cor III, 6), ou seja, que não adianta tentar en­tender a Bíblia por ela mesma, sem o auxílio e a autoridade da Igreja, quem recebeu “as chaves” e o Espírito Santo para conduzir o povo de Deus infalivelmente até o fim do mundo. Ratifico que com estas considerações não pretendo usurpar o lugar dos teólogos, pois não o sou, nem teólogo nem usurpador. Os autores apontados ao final das postagens já esclareceram esta e outras questões de forma satisfatória[20].

Sigamos, portanto.

Em uma passagem de profunda ternura e mistério, no Antigo Testamen­to, lemos que Deus “conheceu”, “visitou” e “santificou” o profeta Jeremias antes de seu nascimento, pois assim convinha devido à missão que havia destinado desde todo o sempre àquela sua criatura (cf. Jer I, 4s). Como isto é possível? É possível “porque a Deus nada é impossível” (Lc I, 37). De onde podemos con­cluir que Deus Todo Poderoso livrando Maria Santíssima do pecado no instante de sua concepção não deixaria de ser, por antecipação, seu salvador (devido à missão destinada a ela, a exemplo da de Jeremias), e ela não deixaria de ter o pecado original, ainda que por um breve período de tempo, como também ocorreu com são João Batista.

Mas há ainda outra consideração.

Vemos que para praticamente tudo existem regras e exceções. Em algumas passagens da Bíblia Deus lamenta que não existam justos, ninguém que faça o bem (cf. Jer V, 1), no entanto não podemos considerar esta regra sem exceções quando se aplica, p. ex., ao próprio Jeremias, que por sua condição já vivia praticando o bem, ou mesmo ao seu secretário pessoal, redator de suas profecias, o também profeta e hagiógrafo Baruque[21]. Com relação a Nossa Senhora se dará algo semelhante: tendo sido totalmente purificada (salva) antes mesmo de sua concepção por conveniência da missão que receberia, se encaixará perfei­tamente no caso de exceção à regra, uma vez que a Virgem, para engravidar e dar à luz a Cristo, teve de ser, por si, uma exceção à regra humana da maternidade. Isto significa que o fato de ter nascido sem pecado não exclui o fato de Deus ser o responsável por esta exclusão, seguindo sendo seu salvador. Tampouco contradiz a afirmação paulina, considerando-a uma exceção à regra. Simples, como Deus é simples.

Mas…

Haverá ainda quem empaque no atoleiro de sua resistência e resista em aceitar que Maria também possa ter nascido (mesmo ter sido concebida) sem pecado. Aos resistentes, duas simples questões para reflexão:

  • Muitas seitas, diferentemente de outras, não batizam as crianças por afirmar que estas “não têm pecados”. Como fica isto?
  • Mas aos que entendem a diferença entre pecado original e pecados atuais[22], pergunta-se: se Maria não pode ser exceção à regra paulina – ela que seria pelo Anjo chamada de a “cheia de graça” [23] –, como fica então o caso de Adão e Eva? Foram criados com pecado? Se foram, quem seria o responsável por sua criação, uma vez que Deus não poderia sê-lo? E se não foram, não seriam eles também uma exceção à afirmação de S. Paulo?

Poderia dar a conhecer ainda um sem número de argumentos, mas creio ser este um dos mais contundentes, ao ter em conta sua procedência. O fato se tornou público e foi registrado. Um beato Papa (Pio IX) o reconheceu. Não por acaso foi justamente este Papa a decretar o dogma da Imaculada Conceição. Transcreverei tal como o encontrei (colchetes meus)[24]:

Em 1823, dois sacerdotes dominicanos, Padres Bassiti e Pig­nataro, estavam exorcizando um menino possesso, de 12 anos de idade [não há como não traçar um paralelo com a idade de Cristo no templo, ensinando aos Doutores da Lei e Fariseus], analfabeto. Para hu­milhar o demônio, obrigaram-no em nome de Deus, a demonstrar a veracidade da Imaculada Conceição de Maria. Para surpresa dos sacerdotes, pela boca do menino possesso [analfabeto], o demô­nio compôs o seguinte soneto:

 

“Sou verdadeira Mãe de um Deus que é Filho,

E sou Sua Filha, ainda que ao ser-lhe Mãe;

Ele de eterno existe e é meu Filho,

E eu nasci no tempo e sou sua Mãe!

 

Ele é meu Criador e é meu Filho

E eu sou sua criatura e sua Mãe.

Foi divinal prodígio ser meu Filho

Um Deus eterno e ter a mim por Mãe.

                                  

O ser da Mãe é quase o ser do Filho

Visto que o Filho deu o ser à Mãe

E foi a Mãe que deu o ser ao Filho

 

Se, pois, o Filho teve o ser da Mãe,

Ou há de se dizer manchado o Filho,

Ou se dirá Imaculada a Mãe!”

(Conta-se que Pio IX chorou, ao ler esse soneto que contém um profundís­simo argumento de razão em favor da Imaculada)

O que nos remete ao quarto dogma mariano[25].

Geralmente há algum escândalo quan­do se ouve dizer que a Mãe subiu ao Céu corporalmente como o Filho. Para solucionar a questão a resposta virá com duas perguntas, desmembradas:

1) Se o salário do pecado é a morte e se Maria Santíssima não teve pecado, seria justo que morresse como os demais? Ou então que morrendo, por seguir o exemplo do Filho que em tudo imitou, não ressuscitasse como Ele e como Ele não fosse para o Céu corporalmente[26] para que, além de sua merecida recompensa, Deus ainda nos desse uma mostra do que ocorrerá com os que forem salvos após a ressurreição? Ela, que pela dignidade recebida foi a que mais se humilhou, não deveria ser a mais exaltada[27]?

2) No caso de Maria não poder ter subido aos céus em corpo, como deseja o protestantismo, por que o patriarca Enoque (cf. Gên V, 24) e o profeta Elias (cf. 2 Re II, 11), inferiores em graça, dignidade e santidade o puderam (ainda que a Bíblia não defina aonde foram, mas cite explicitamente que o foram em corpo)? A Deus tudo não é possível?

Os católicos adoram Maria!

Deixo para o final esta famosa difamação, que carece de coisas preciosas como, por exemplo, o senso da pequenez, pois quem afirma tal estultice não estará fazendo outra coisa que considerar-se Deus. É plausível que perguntem o porquê. Porque quem assim procede estará julgando-se capaz de realizar um prodígio que só a Deus pertence: sondar os corações (cf. Sal X, 5; CXXXVII, 6; Jer XI, 20 e XVII, 9s). Nada estranho a um mundo que parece conferir verdadeira latria a fictícios super-heróis, artistas, políticos e “homens de Deus”. Mas, se de fato nenhum homem é capaz de sondar ou perscrutar os cora­ções como “está na Bíblia” – salvo se por exceção à regra Deus assim o conceda, como o fez com alguns santos como Hildegarda, Cura d’Ars e Pio de Pietrelcina –, caso tentem fazê-lo por conta e risco incorrerão em pecados um tanto graves como os de falso testemunho, calúnia, injúria, difamação, soberba, magia ou adivinhação, idolatrando a si próprio ou ao pastor, que conhece tanto sobre perscrutação e sondagem de corações como a criança que desenha estrelas, de astrofísica. Ao se afirmar tal discrepância, o que (ainda) se ignora é que ao se prostrar diante de uma imagem da Vir­gem ou de um santo, não se está adorando a nenhum deles, por isso não há pecado algum, pois não é a prostração, o ato de prostrar-se, o problema, mas a intenção com que se faz[28]. Tampouco a prestação de culto o é, uma vez que há diferenças também aqui. O culto prestado a tão sublime criatura é o de hiperdulia, ou seja, uma reverência e uma veneração que mesmo estando abaixo (e muito) das prestadas a Deus (latria), vão além da dos santos (dulia) por ser Ela a “gracia plena”, título não confe­rido a nenhuma criatura, inclusive aos anjos. Como disse na questão anterior, só a Deus adoramos, veneramos e reverenciamos; aos santos – especialmente Maria Santíssima –, os veneramos e reverenciamos.

Uma última consideração

Jesus na cruz nos deixa Sua Mãe. Não podemos por isso ter a pretensão de abraçar a nossa cruz sem passar por Ela, sem pedir seu auxílio e seguir seu exemplo. Se São Paulo pode dizer “sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (1 Cor IV, 16), Ela, com muito mais propriedade o pode. Ela nos deu o Filho, O conduziu à cruz e lá permaneceu, de pé, fiel, com S. João. Por Cristo, não só uma Mãe foi dada a um filho, um filho tam­bém foi dado a uma Mãe. Dela cuidou, mas por Ela foi cuidado. E depois, não teria sentido o Esposo sem a Esposa. Por isso lá estava também em Pentecostes, acompanhando o Espírito Santo nos primeiros passos de Sua nascitura, a Igreja, até Deus decidir que já poderia trilhar sozinha o seu caminho. Então a leva, para continuar, de longe, por perto. Sempre atenta como em Caná, como toda boa mãe.

Por fim – mas sem esgotar o tema – três questionamentos para que ao me­nos o leitor se pergunte como vem tratando a Mãe que lhe foi dada pelo próprio Filho-Deus, porque convinha que Maria, escolhida como mãe da Cabeça tam­bém o fosse do Corpo (ou será que nossa mãe só o é de nossa cabeça?). E ainda, convinha que Maria fosse a mãe (da graça) de toda a humanidade, anulando assim o efeito (de desgraça) causado pela primeira “mãe dos viventes”, Eva[29]. Então vejamos:

1) se é verdade que um rei é chamado de senhor, como chamar a mãe deste rei e senhor? E se Jesus Cristo é nosso Rei e Senhor, como então chamar sua Mãe?

2) se Cristo, que veio para levar à perfeição os mandamentos, acima e me­lhor que todos nós “honrou pai e mãe”, o que fará – sendo Deus – com todos os que desonrarem ainda que minimamente a mulher que escolheu por Mãe (antes, Filha e Esposa)?

3) qual o sentido de Cristo ter deixado sua Mãe aos cuidados de um apósto­lo – que seria uma das colunas da Igreja (cf. Gal II, 9) – se Ela tivesse tido outros filhos? E mesmo considerando que não os tivesse (o que é fato), por que dá-la a S. João se possuía parentes mais próximos mesmo entre os apóstolos, como era o caso dos primos S. Judas Tadeu e S. Tiago Menor? Assim sendo, quem será então que S. João representava?

 

Em tempo: Até o presente, como vimos acima, quatro foram os dogmas procla­mados pela Igreja com relação à Virgem Maria. Sobre o quinto e último ainda a ser proclamado, o de Maria como Medianeira, Advogada e Corredentora, lemos em Lanús[30]o que segue:

Os primeiros quatro dogmas marianos se centram na vida de Maria e em sua Assunção ao Céu. O quinto dogma quer formular presentemente seu papel universal no plano redentor de Deus. “Pois uma vez recebida nos céus”, diz o C.V. II,” não deixou seu ofício salvador, senão que continua alcançando-nos por sua múltipla intercessão os dons da eterna salvação”. Proclamando este dogma de modo solene, a Igreja glori­ficará a Deus mesmo reconhecendo seu plano de salvação. Além disso, com esta procla­mação Maria poderá revelar plenamente a preeminência de seus títulos e de sua ma­ternidade universal; e conceder “graça, redenção e paz” à humanidade e ao mundo. É a via rumo a uma nova “Caná”, que dará a Maria a possibilidade de tocar o Coração do Filho e realizar uma efusão única do Espírito Santo em nossos dramáticos tempos.

O que permitirá concluir este capítulo com a oração ensinada pela “Mãe de Deus e nossa Mãe” a Ida Peerdeman, em uma das poucas aparições reconhecidas pela Igreja, a de Amsterdam, na qual Maria é invocada sob o mui significativo título de Senhora de Todos os Povos:

 

Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai

manda agora teu Espírito Santo sobre a Terra.

Faz com que o Espírito Santo habite

no coração de todos os povos,

preservando-os da corrupção

das calamidades e da guerra.

Que a Senhora de todos os Povos,

a Santíssima Virgem Maria,

seja nossa Advogada.

Amém.


NOTAS

[1] Aqui temos a heresia iconoclasta, também chamada Iconoclastia ou Iconoclasmo (séculos VIII e IX). Surgida no Império Bizantino como revolta político-religiosa e que se estendeu para além de seus domínios, condenava todo e qualquer ícone como uma forma de idolatria e blasfêmia, destruindo-os em consequência.

[2] Cf. Mt VII, 6.

[3] Ibid.

[4] Cf. Sal CXXXVI.

[5] Mãe de Deus. Seu papel maternal no nascimento de Cristo, o filho de Deus, a fez verdadeiramente Mãe de Deus (Theotokos, Concílio de Éfeso, 431).

[6] Ver: https://www.youtube.com/watch?v=SCfI-oC-KNs (Acesso em 23/05/2015).

[7] Virgindade Perpétua. Antes do parto, durante o parto e depois do parto (Sínodo de Latrão de 649, que apesar de não ser um Concílio Ecumênico se considera como verdadeira definição dogmática do Papa Martinho I).

[8] Cf. Lc I, 34.

[9] O que se comprova pela saudação do anjo: “Ave, cheia de graça” (Lc I, 28), e porque, além de acolher em seu ventre o Ser perfeito e sem mancha, não só o alimentaria com seu leite, mas daria a Ele a sua carne e o seu sangue, como se verá adiante.

[10] Cf. Mt I, 19.

[11] Cf. Ez XCIV, 1ss.

[12] Isa XLII, 8.

[13] Adv. Helvidicum: PL 23, 283B – apud AQUINO, S. Tomás – Ave Maria Expositio. Musa. 2010.

[14] Neste ponto mui esclarecedora é a passagem de Gn XIII, 8 em que Abraão chama seu sobrinho Lot (cf. Gn XII, 5) de irmão, comprovando que para os judeus o termo também se aplicava a parentes, tal como ocorrerá com Jesus e os seus “irmãos”, que, curiosamente nunca são denominados como filhos de Maria.

[15] Lembrando que não era próprio dos judeus um intervalo tão grande entre um filho e outro e que, se então existissem, seriam certamente citados pelo evangelista.

[16] Cf. Ave Maria Expositio, pgs. 87s. 107-110.

[17] Imaculada Conceição. Maria concebida sem a mancha do pecado original (Pio IX, proclamação como dogma em 1854).

[18] Cf. Lc I, 46s.

[19] Cf. Rom III, 23.

[20] É famoso o argumento da “redenção preventiva”, do beato Duns Scoto, mencionado recentemente em uma homilia de Bento XVI (Em: http://www.franciscanos.org.br/?p=4351. Acesso em 01/11/2017).

[21] Ver capítulo VI – o Cânon.

[22] Ver capítulo XIII – O Batismo e o Limbo das Crianças.

[23] Do grego kejaritomene; passado ao latim temos gratia plena. Ambas as expressões dão o sentido de comple­tude, repletidão. Por isso, onde há plenitude de graça, não pode haver o mínimo resquício de pecado.

[24] Extraído de http://www.padremarcelotenorio.com/2011/12/ate-o-demonio-canta-a-imaculada/ (Acesso em 31.10.2017).

[25] Assunção. Maria assunta aos Céus de corpo e alma (Pio XII, proclamação como dogma em 1950).

[26] A diferença entre Jesus e Maria, ensinada pela Igreja, é a de que Ele ascendeu por si (de Ascen­são. Subir em virtude do próprio poder), e Ela foi assunta (de Assunção. Ser elevado por outrem; neste caso os anjos).

[27] Mui a propósito, note-se que Maria, como visto acima, diz que todas as ge­rações a chamariam bem-aventurada (cf. Lc I, 48). O termo “bem-aventurado” ou “beato” é destinado àqueles que se encontram no Céu, vendo a Deus “face-a-face”. A Igreja sempre cumpriu esta profecia-mandato, e Lutero nisso a acompanhou.

[28] Como visto na questão das imagens no capítulo anterior.

[29] Cabe aqui salientar como os protestantes parecem não se aperceber de que, ao tempo em que aceitam a maternidade universal de Eva, relutam em negar a de Maria, o que somente faz provar que ainda não compreenderam sequer o Gênesis, que não somente traz a figura de um velho Adão, do qual Cristo será a nova Figura, mas também a de uma velha Eva. Por isso, dizem os santos, assim como a desgraça vem por um homem, mas antes e indiretamente por uma mulher, a toda a humanidade herdeira de seu pecado original, a graça, por disposição e sabedoria divinas, vêm também por um novo Homem, porém, antes e indiretamente por uma nova Mulher. Não por acaso a promessa de salvação já no livro das origens envolve a Mulher (cf. Gn III, 15), uma vez que no Éden Satanás vencera a ambos, o que significa dizer, homem e mulher. Se em um primeiro momento fomos, sem escolha, confinados a ser filhos pela natureza de Eva, herdando assim a morte, pela graça (portanto, para a nossa salvação), devemos, com (direito a) escolha, aceitar a filiação pela graça de Maria. Como Adão recebeu de Eva o fruto do pecado, fazendo com que seus filhos morressem, Cristo recebe de Maria o fruto da salvação para que seus filhos revivam.

[30] Lanús, SANTIAGO. Mãe de Deus e Nossa Mãe (tradução digital autorizada Frei Zaqueu), p. 73. Maio­res informações sobre o tema, ver item 16.6 “O quinto dogma mariano” (pgs. 162-164). Fonte: https://es.scribd. com/doc/300666089/MAE-DE-DEUS-E-NOSSA-MAE-Fatima-Amsterdam-e-Garabandal.

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