Instrução – A Ressurreição Gloriosa

A Páscoa é a mais antiga e a mais solene das festas do ano eclesiástico. A nota dominante da liturgia é uma intensa alegria e gratidão pelo benefício da Redenção que se traduz pela repetição do “Aleluia”.

A celebração da Páscoa não tem dia fixo no Calendário, mas se celebra no primeiro Domingo depois da lua cheia, de março.

Jesus Cristo morreu a 14 do mês de Nisan, mês judaico lunar, correspondente mais ou menos ao nosso 22 de março a 25 de abril.

Os meses atuais sendo solares, e pelo fato sendo mais longos, há necessariamente incompatibilidade nas datas.

Em 325 o Concílio de Niceia adotou como data da ressurreição o primeiro Domingo depois da lua cheia de março. É o que faz com que a Páscoa ocorra de 22 de março a 25 de abril.

A Páscoa é pois uma data fixa, Lunar, que difere da data fixa Solar do nosso atual calendário. 

Liturgia da Vigília Pascal (clique aqui); Liturgia do Domingo da Páscoa (clique aqui).


Dia da Páscoa!

Dia de intensa alegria pela ressurreição do Salvador. Acompanhamos a divina Vítima durante a Semana Santa, e seguimos, passo por -passo, o drama doloroso da sua paixão e morte, deixamo-lo depositado no sepulcro, onde permaneceu o resto da Sexta-feira, o Sábado e começo do dia do Domingo, enquanto a sua alma foi levar ao limbo a grande nova, comunicando-a aos santos aí detidos, na esperança da Redenção. Lá o esperava o bom ladrão penitente a quem Jesus havia prometido o paraíso no dia da sua morte. Jesus glorioso é o Paraíso; e o bom ladrão, ainda de olhos úmidos e de coração palpitante, pôde agora contemplar a glória única do Filho de Deus, que foi, momentos antes, o seu companheiro de suplício. Mas havia chegado o dia da ressurreição predita. A alma gloriosa entrou de novo em seu corpo e ei-lo cheio de vida, prestes a deixar o túmulo, que os soldados guardavam, sem suspeitar sequer dos grandes mistérios, que se estavam realizando atrás da pedra que o fechava. Percorramos, um instante, o desenrolar destes grandiosos acontecimentos, examinando:
I – Os preparativos da ressurreição.
II – As aparições de Jesus ressuscitado.

I – OS PREPARATIVOS DA RESSURREIÇÃO

Era o dia da Páscoa.

A aurora alvacenta anunciava o levantar do sol, que devia iluminar a mais bela cena, que o mundo já presenciou. O mais profundo silêncio envolvia o sepulcro, onde haviam sido depositados os restos mortais do Salvador, e em redor do qual estavam sentados, ou dormiam os guardas do templo, os soldados dos judeus. Os selos apostos pelo Sinédrio estão intactos, e ninguém suspeita dos mistérios ali já realizados. Desde a véspera, com o fim do Sábado, as santas mulheres, Maria Madalena, Maria, Mãe de Tiago e Salomé, tinham comprado e preparado os perfumes destinados a um completo embalsamamento do corpo de seu divino Mestre, o que havia sido feito provisoriamente e às pressas por Nicodemos. Tendo-se levantado cedo, elas seguiram para o sepulcro, inspiradas pelo seu amor a Jesus, sem sequer pensarem na grande pedra que fechava a entrada do túmulo, nem nos selos nela colocados, nem na tropa de soldados que ali faziam guarda. É no meio do caminho que perguntam uma a outra: Quem nos há-de revolver a pedra da entrada do sepulcro? (Marcos XVI, 3 ).

Apenas haviam entrado no jardim, que continha o sepulcro, e eis a terra a tremer debaixo de seus pés. Um anjo luminoso desce do céu ; um vestido resplandecente de alvura o envolve; seus olhos lançam raios. Num relâmpago ele se inclina sobre o túmulo, quebra os selos, remove a pedra, e senta-se em cima numa atitude de triunfo e majestade, como esmagando com os pés os inimigos vencidos.

O guarda do sepulcro é ele. Os soldados atemorizados caem como fulminados. Quando a bondade divina lhes permite levantarem-se, afastam-se às pressas deste lugar tremendo e correm para a cidade, afim de contar o que acabavam de presenciar. São Mateus ajunta que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos juntaram-se e conferenciaram de que modo poderiam ocultar um acontecimento tão estranho e refulgente. Não encontraram melhor meio de esconderem a sua derrota e o triunfo do terrível Galileu, que acabavam de assassinar, do que subornar os soldados a peso de dinheiro. Mandaram chamá-los, e prometeram a cada qual uma soma avultada com condição de espalharem que, enquanto dormiam, de noite, os discípulos de Jesus tinham vindo e roubado o corpo de seu Mestre. E como o objetassem os soldados que se Pilatos ouvisse falar do furto do cadáver, teriam de lhe dar contas de seu procedimento, responderam-lhe os fariseus, que eles se encarregavam de dar as necessárias explicações ao Governador.

Deste modo, livres do perigo, os soldados propalaram a fábula ridícula do pretenso roubo.

Era o cúmulo da hipocrisia, da perversidade e do cinismo, pois qualquer homem sensato podia objetar-lhes a queima-roupa : Estáveis a dormir ou acordados?

Se estáveis a dormir, nada pudestes ver do roubo. Se estáveis acordados, por que deixastes os discípulos perpetrarem um tal roubo?

É o dilema de Santo Agostinho. Neste intervalo haviam chegado as santas mulheres ao pé do sepulcro.

Madalena, mais nova e impacientemente ardorosa, havia tomado a dianteira; mas qual não foi a sua estupefação, quando, ao chegar ao túmulo, viu a pedra já tirada e a entrada do jazigo completamente livre. Nem ao menos lhe veio a ideia de que Jesus havia talvez ressuscitado, mas, persuadida de que haviam roubado o corpo, deixou as companheiras, e sem perda de tempo, correu ao Cenáculo para participar aos Apóstolos o que acabava de presenciar.

II – APARIÇÕES DE JESUS RESSUSCITADO

Nenhum dos Evangelistas descreveu o fato da ressurreição; nenhum deles o havia presenciado. Eles viram-no ressuscitado; não contam como ressuscitou. É provável que nunca o souberam como nós não o sabemos. É mistério divino!

Enquanto Maria Madalena foi anunciar o fato da desaparição do Mestre aos Apóstolos, as suas duas companheiras, chegando ao sepulcro, penetraram no vestíbulo, que precede o túmulo, e aí à direita, viram um anjo cujo aspecto majestoso e vestes cintilantes as enchiam de terror. Disse-lhes o anjo: Não temais; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; ressuscitou; não está aqui; eis o lugar onde o haviam posto; mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia; lá o vereis, como ele vos disse. (Marcos XVI, 6) .

As duas mulheres, trêmulas e, gélidas de medo, saíram do sepulcro e fugiram, não se atrevendo a pronunciar a mínima palavra. Neste tempo, Madalena havia comunicado o fato a Pedro e a João. A emoção dos dois apóstolos foi intensa, como se depreende da narração evangélica. Pedro e João levantam-se e correm ao sepulcro; corriam ambos juntos, mas João correu mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro (João XX, 4).

João, inclinando-se para o interior do monumento, viu as mortalhas dobradas ao lado, mas não entrou.

Alguns instantes depois, chegou Pedro e penetrou no jazigo a certificar-se do que havia ocorrido. Viu as faixas de um lado e o sudário, que cobria a cabeça, dobrado, do outro. Aproximou-se João por sua vez, fez as mesmas observações e ambos concluíram como Madalena, que tinham tirado o corpo. Nenhum deles imaginou que Jesus tivesse ressuscitado, pois uma espécie de véu, como diz S. João, lhes toldava o espírito de tal modo, que as profecias sobre a morte e ressurreição do Messias eram para eles como letra morta (João XX, 9). O que desconcertava Pedro era ver a mortalha e faixas, cuidadosamente dobradas e postas de lado, o que era contrário a um furto. Tudo parecia indicar que este túmulo havia testemunhado um despertar pacífico e suave. João viu e creu! (João XX, 8 ), enquanto Pedro procurava explicar o enigma. Ele creu, quando Madalena não cria ainda. Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus. Jesus tem mais ternura para Madalena, mas tem maiores dons para João. A primeira beija-lhe os pés; o segundo reclina-se sobre o seu peito. Ele vai aparecer a uma e ou outro ; não precisa mostrar-se a Pedro: Pedro é o Apóstolo da fé. O coração puro tem intuições mais penetrantes que o coração arrependido.

Os dois discípulos retiram-se: um admirado, outro crente. Madalena fica e chora. Ela não pode separar-se deste túmulo vazio, mas tão amado. Ela quer encontrar estas relíquias queridas. Que acontecerá? Escutemos S. João ; ele vai contá-lo:

Voltaram, pois, outra vez os discípulos para casa, porém Maria conserva-se da parte de fora do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para dentro, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar, onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés; e eles disseram-lhe: Mulher, por que choras? Respondeu-lhes: Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? A quem procuras?

Ela julgando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Jesus lhe disse: Maria.

Ela voltando-se, disse-lhe: Rabboni, (que quer dizer: Mestre) . Disse-lhe Jesus: Não me toques, porque ainda não subi para meu Pai.

Foi Madalena dar a nova aos discípulos: Vi o Senhor, e ele disse-me estas cousas. (João XX, 10-19).

Como tudo é fulminante de luz nesta sublime página do Evangelho!

Jesus ressuscitou e aparece para consolar àqueles que tanto choraram e sofreram com ele. Ele não se manifesta, nem a Pilatos, nem a Herodes, nem aos chefes dos judeus, para confundi-los; não, nada de humano deve entrar nesta cena divina. Nem aparece logo a Pedro, a João, nem a um outro de seus Apóstolos. Ele se mostrou primeiro a sua Mãe querida e depois a Madalena. A Madalena, que muito pecou, mas que muito soube amar. A pureza imaculada recebeu a sua primeira visita; a pureza readquirida pelo arrependimento e o amor receberá a sua segunda visita. Tocante delicadeza do Coração de Jesus.

III – CONCLUSÃO

Tais são as primícias das aparições, que devem provar a ressurreição gloriosa do Salvador. O sepulcro vazio é a prova negativa. As aparições constituem a prova positiva. Jesus apareceu igualmente ao grupo das santas mulheres, que o tinham amparado em suas dores. Pouco depois de Madalena, foram ao sepulcro, Joana, esposa de Chusa, e outras mulheres da Galileia, pensando encontrar lá o corpo do Mestre.

Não o encontrando ficaram consternadas, mas eis que a seus olhos se apresentam os dois anjos em trajes resplandecentes de luz, dizendo-lhes: Não venhais procurar entre os mortos a um vivo, Jesus não está aqui, ressuscitou, conforme prometeu. Voltai depressa para Jerusalém e dizei aos discípulos e a Pedro, que Jesus ressuscitou e irá adiante de vós para a Galileia.

Estas iam pressurosas anunciar esta boa nova, quando de repente, um homem as fez parar: Mulheres, disse ele, a paz seja convosco. Era o próprio Jesus. Reconheceram-no, lançaram-se-lhe aos pés, abraçaram-no, e adoraram com amor ao seu Senhor e Deus! Consolou-as o bom Mestre e disse-lhes antes de se despedir: “Agora, não temais, ide dizer a meus irmãos que vão para a Galileia, onde me verão!” (Mat. XXVIII, 9 e 10) . Foi a terceira aparição de Jesus! Pouco depois, pela tarde do mesmo dia, Jesus aparece a Pedro, para acabar de purificar e elevar a grande alma do Chefe dos Apóstolos. Infelizmente, não temos nenhum pormenor sobre esta quarta aparição. De certo que a humildade de Pedro não deixou contar o fato, que S. Lucas assinala apenas de passagem. A quinta aparição, aos discípulos de Emaús é longamente contada pelo Evangelho. A sexta aparição é aos discípulos reunidos no Cenáculo. (Lucas XXIV, 3-6). A sétima é para confundir e curar a incredulidade de Tomé (João XX, 24) . A oitava é a aparição no lago de Tiberíades (João XXI, 1). A nona deu-se em Galileia a mais de quinhentos discípulos (I Cor. XV, 6 ). A décima é a aparição a Tiago e aos Apóstolos reunidos. (I Cor. XV, 7) . Tais são as principais aparições que a Sagrada Escritura e a Tradição nos conservaram, porém, pode compreender-se pelas expressões, que houve muitas outras. A ressurreição é, pois, um fato certo, bem provado, tanto pela palavra de Jesus Cristo, como pelo túmulo vazio e pelas numerosas aparições. Jesus Cristo ressuscitou, dizendo que era Deus. A sua religião é pois, divina. E esta religião é à nossa: a religião Católica, Apostólica, Romana. A festa da Páscoa é, pois, uma confirmação da nossa fé, e um estímulo para amá-la e praticá-la generosa e completamente. 


Fonte: O Evangelho das Festas Litúrgicas e dos Santos mais populares. 2ª Edição: Manhumirim: O Lutador, 1952. pp. 195-202. (saiba mais sobre a obra e as postagens)

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