Instrução – A Adoração da Cruz

A cerimônia de hoje, em sua tocante simplicidade, é de um simbolismo profundo, que convém compreender.

Antes de prostrar-nos diante da imagem de Jesus Crucificado e beijar-lhe os pés sagrados, devemos compreender o que é a adoração.

Adorar é prestar a alguém o culto supremo, reservado a Deus, reconhecendo-o como nosso Criador e Mestre. Só podemos adorar a Deus. Adoramos a Jesus Cristo, prestando-lhe o culto, que a Igreja chama de latria (adoração), porque ele é verdadeiro Deus, como é verdadeiro homem, unindo a natureza divina e a natureza humana numa única pessoa: a pessoa do Verbo Encarnado.

A adoração, como todo ato de culto, é absoluto, quando se dirige ao próprio Filho de Deus, e relativo, quando se dirige à representação do Salvador.

Jesus Cristo deve ser adorado com um culto de latria adoração absoluto e devem ser adorados, com um culto de latria relativo, a sua imagem e a cruz sobre a qual morreu, por ter sido regada pelo seu sangue.

A este culto de adoração relativa, juntaremos o culto de nosso amor, expresso pelo beijo, que depositamos sobre seus pés.

Falemos um instante deste ato de beijar os pés de Jesus Cristo, examinando:
I – A sua significação.
II – A sua aplicação.

Liturgia do dia: clique aqui e leia.

I – A SUA SIGNIFICAÇÃO

O beijo é a manifestação de um amor ardente.

Os pais beijam os seus filhinhos, e os filhos a seus pais, para manifestarem, publicamente, a veneração e o amor, que lhes dedicam.

Percorrendo o Evangelho notamos que só 4 pessoas tiveram a felicidade de beijar a Jesus; mas que diferença na significação dos beijos destas três pessoas!

Os primeiros foram a Virgem Imaculada e São José.

Com quanta ternura adoraram o menino Jesus no presépio, e imprimiram sobre sua fronte sagrada os beijos quentes e prolongados da sua ternura! Eram beijos radiantes de amor e de pureza.

Oh! eles podiam aproximar-se. da pureza infinita de seu Jesus; eles: Maria e José; a primeira, preservada da mancha do pecado original ; o segundo, purificado desta mancha.

Corações de anjos, eles tinham o direito de depôr sobre a fronte, sobre as mãozinhas, e sobre os pés do menino Deus o beijo da pureza virginal.

Uma outra criatura, teve a felicidade de aproximar os seus lábios dos pés do Mestre adorável: É Madalena a pecadora, mas a pecadora arrependida, que procurou, na pureza divina de Jesus, a purificação de seus erros passados.

Madalena regou, por primeiro, os pés de Jesus, enxugou-os com a sua longa cabeleira, e depois beijou-os com efusão: Era o beijo do arrependimento.

O arrependimento que lava, purifica, reabilita.

Feliz Madalena !

Uma quarta criatura aproximou-se, um dia de Jesus, e saudando-o, beijou-lhe na fronte. E chegando-se depressa a Jesus, lhe disse: Salve, Mestre; e deu-lhe um ósculo (Marc. 25-49 ).

Este homem, em desalinho, desajeitado, de olhos inquietos, é conhecido no mundo inteiro, e o seu nome é o símbolo da covardia, da baixeza; chama-se Judas!

Judas, o traidor, o renegado, o demônio, como o chamou o próprio Salvador: Unus ex vobis diabolus est. (João VI. 70). Era o beijo da traição.

Infeliz Judas, predecessor de todos os traidores, dos renegados, daqueles que vendem a sua alma por um miserável dinheiro, ou um prazer passageiro.

II – A SUA APLICAÇÃO

Eis os três beijos, que .Jesus recebeu: o beijo da pureza; o beijo do arrependimento; o beijo da traição.

A história do mundo se perpetua e se renova sem cessar. Jesus, o sublime e terno Jesus, está sempre em frente de nós, recebendo de suas criaturas um destes beijos.

Há, neste mundo, almas puras, sedentas de amor, que se aproximam de Jesus e imitadoras de Maria Santíssima e de S. José, beijam-lhe a fronte, as mãos e os pés, com a expressão de amor que lhes arde no coração, e com o desejo de reparar as blasfêmias, os insultos e os ódios que ele recebe dos ingratos. É a categoria dos bons católicos, das almas que praticam a sua religião, e vivem mais para Deus do que para o mundo. Felizes daqueles que pertencem a esta primeira categoria, e podem aproximar-se do crucifixo e dizer-lhe com a convicção com que Pedro lhe dizia: Tu sabes! Senhor, que eu te amo!

* * *

O segundo beijo foi o de Madalena, a convertida. Era um beijo de arrependimento sincero, envolto em lágrimas de amor Cair, é sempre triste. Levantar-se é nobre! O soerguimento do pecador agrada a Deus ao ponto de Jesus Cristo afirmar que há mais alegria no Céu pela conversão de um pecador, do que pelo fervor de noventa e nove justos que não precisam de misericórdia. 

A razão é simples. Deus é pai da misericórdia e o seu coração se entristece quando vê um homem precipitado no mal; porém, tal uma mãe, desde que o arrependimento brota desta alma ferida, ele perdoa, esquece o passado e parece só sentir a alegria da conversão. Felizes daqueles que sabem chorar aos pés de Jesus, e reparar, pelo arrependimento, as faltas do passado.

* * *

O terceiro beijo é o da traição. Neste beijo parece que se concentra tudo o que o mundo tem de mais lamacento e repugnante. Se o beijo virginal de Maria, foi como que a quintessência das virtudes e o aroma concentrado da pureza, o de Judas é como a quintessência do vício, da maldade, da baixeza.

É um beijo traidor! Este beijo reproduz-se pelos lábios dos pecadores obstinados, dos desgraçados, que vivem mergulhados no fundo do lamaçal e não sentem nem o desejo de se levantar, nem sequer fazem um esfôrço para sair da obra de Judas. Infelizes pecadores. que Jesus ainda ama, como continua a amar o traidor. mas que não se deixam mais comover pelos convites do amor de Deus.

III – CONCLUSÃO

Vamos todos, pois, beijar os pés de Jesus!

Neste préstito haverá as três espécies de ósculos, que Jesus sentirá sobre os seus pés e que o seu coração distinguirá perfeitamente. O beijo das almas puras: este será um ,bálsamo para o seu coração. O beijo dos pecadores arrependidos: este será um sorriso para a sua alma agoniada. O beijo dos pobres e infelizes indiferentes e pecadores sem desejos de sair da sua letargia mortal, oh! este seria um beijo de Judas. Mas que digo, oh meu Deus Judas?!

Houve um na Palestina no Brasil, esta raça não existe!

O brasileiro é católico! ele ama a sua religião. Às vezes não a pratica perfeitamente, por ignorância, por hábito, raramente por impiedade. Oh, Jesus! que todos os lábios que hoje vão depositar o seu beijo sobre os teus pés adoráveis, sejam lábios puros ou arrependidos, que te consolem, e redigam como S. Pedro: Tu sabes, Senhor, que eu Te amo!

Longe de nós o beijo da traição! O nosso será de arrependimento, que merecerá a resposta que deste a Madalena: Muito lhe será perdoado, porque muito amou! 


Fonte: O Evangelho das Festas Litúrgicas e dos Santos mais populares. 2ª Edição: Manhumirim: O Lutador, 1952. pp. 160-163. (saiba mais sobre a obra e as postagens)

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