Instrução – Virtude e Devoção do Santo (S. Gabriel das Dores)

São Gabriel de L’Adolorata, cuja vida está encerrada na aplicação do Evangelho que lhe dedica a Igreja, é um dos santos protetores da juventude.

Jesus disse: Destes tais é o reino de Deus. Todo o que não receber o reino de Deus como um menino, não entrará nele.

O humilde Passionista que a Igreja honra neste dia, soube, admiravelmente, compreender e reduzir em prática o convite do divino Mestre: fez-se pequenino, simples, caridoso, como as crianças.

São Gabriel é entre os religiosos, o que Santa Teresinha de Lisieux é entre as religiosas: são dois luzeiros de uma santidade simples, prática, ao alcance de todos.

Cada santo tem a sua fisionomia própria, que o distingue dos outros santos e esta fisionomia é formada por uma devoção e uma virtude próprias.

Percorramos um instante a vida de São Gabriel, destacando depois esta fisionomia própria. Vejamos pois, sucessivamente:
    I – A sua vida simples e comum exteriormente.
    II – A sua devoção e virtude próprias.

I – VIDA DE SÃO GABRIEL

S. Gabriel, no mundo Francisco Possente, nasceu em 1 838, em Assis, lugar já santificado por São Francisco, sendo filho do Governador dessa cidade.

Passou os primeiros anos da infância protegido pelos cuidados da sua piedosa mãe. Morta esta, o pai, profundamente católico, continuou a obra de formação do filho.

Apesar de piedoso, Francisco vinha-se revelando, no verdor dos anos, um tanto inconstante, volúvel e irascível.

Era ao mesmo tempo vaidoso, querendo se trajar sempre com esmero e conforme a moda. Frequentava as reuniões joviais e se entregava com ardor e entusiasmo aos divertimentos frívolos, ainda que sempre honestos.

O pai, zeloso pela formação do filho, entregou-o à direção dos Irmãos das Escolas Cristãs e depois aos Revs. Padres Jesuítas, onde terminou os estudos elementares.

Francisco dedicava grande afeição a sua irmãzinha Maria, que muito se lhe assemelhava em tudo.

A morte desta irmãzinha foi para ele o golpe, que o devia separar do mundo e levá-lo a Deus.

Nesta ocasião, o jovem caiu gravemente doente e foi quase por milagre que escapou à morte. Então, prometeu a Deus, caso sarasse, de consagrar-se inteiramente ao seu serviço.

Pensava primeiro em ingressar na Companhia de Jesus, mas Deus o destinou para os Passionistas.

Despediu-se de seu querido pai, de seus amigos, e dirigiu-se para a casa de Noviciado dos Passionistas, em Morrovalle, onde recebeu o santo hábito, em 10 de setembro, de 1856, tomando o nome de Gabriel de L’Adolorata. Professou no ano seguinte, com uma convicção e um amor de Deus admiráveis.

O jovem Passionista, sem se distinguir, exteriormente, de seus colegas, procurava santificar-se pela observância fiel da sua regra; pelo espírito de oração e pela aplicação aos estudos superiores, que começou depois da profissão.

Jovial, caridoso, mortificado, Gabriel seguia exteriormente os exercícios da sua comunidade, mas procurava interiormente aperfeiçoar tudo e santificar-se, distinguindo-se apenas pelo seu terno amor à Virgem das Dores e à Sagrada Eucaristia.

Tinha, constantemente sobre os lábios, a saudação Angelical e recitava, diariamente, o Rosário com uma devoção tocante, juntando-lhe o Stabat Mater, que era recitado entre lágrimas e suspiros.

Contam seus companheiros que Gabriel, embora jovial, era reservado em suas palestras, porém, quando podia falar da Mãe celeste, sua eloquência tornava-se fluente, inesgotável.

Quanto à Eucaristia, era o centro de sua vida. Comungava diariamente com extrema devoção, consagrando a manhã em ação de graças, e a tarde em preparação para a comunhão seguinte.

Durante o dia, fazia numerosas Comunhões espirituais, tendo sempre o espírito perto do Tabernáculo.

Estava o piedoso estudante no 23.º ano de sua vida, com uns 5 anos de vida religiosa, seguindo com pleno sucesso os estudos teológicos, quando, de repente, a saúde começou a enfraquecer. Pouco depois, estava tuberculoso.

Gabriel não se admirou; fez o sacrifício de sua vida, pedindo a Deus, não a cura, mas a graça de uma santa morte.

Enquanto se mantinha em pé, quis seguir os exercícios da comunidade, não aceitando nenhum privilégio. No dia 16 de fevereiro de 1862, depois de ter assistido à Santa Missa e feito a Sagrada Comunhão, Gabriel sentiu-se tão abatido que foi obrigado a ficar de cama, onde a enfermidade, a passos lentos, mas seguros, ia arruinando o seu organismo.

Calmo, resignado, absorto na oração, Gabriel só pensava na eternidade; pediu perdão a seus colegas das faltas cometidas, recomendava-se às orações de todos, e preparava-se para comparecer perante o tribunal de Deus.

Nos últimos dias, foi cruelmente perseguido pelas tentações do demônio, as quais, conforme narrava o doente, eram de presunção. Mas tendo o seu confessor aspergido o quarto com água benta, Gabriel ficou sossegado, dizendo que gozava de uma paz profunda.

Uma outra vez, o demônio lhe apresentou visões obscenas, mas o enfermo afugentou-o invocando a Virgem das Dores.

Sentindo a morte aproximar-se, pediu que lhe trouxessem a imagem da Virgem dolorosa; cobriu-a de beijos e inundou-a de lágrimas, apertando-a com fôrça contra o coração, dizendo: Ó minha boa Mãe, depressa!

Depois, sem nenhuma ânsia, calmo, sereno, Gabriel abriu os olhos, levantou-os e os fixou em direção ao lado esquerdo: um suave sorriso aflorou-lhe aos lábios, e o seu semblante parecia nimbar-se de uma luz radiante; um leve suspiro saiu de seu peito, e o jovem religioso não pertencia mais a este mundo. Era no amanhecer do dia 27 de fevereiro de 1862.

O corpo de Gabriel, sepultado no Convento dos Passionistas aí esteve 30 anos. Este sepulcro tornou-se glorioso, sendo centro de romaria dos fiéis, e uma fonte de milagres, a ponto que em 1892 os restos mortais do santo jovem foram exumados, reconhecidos, e outra vez depositados no sepulcro, onde se multiplicaram os milagres.

Em 1896 a sua causa foi introduzida em Roma, e em 1905, após rigorosos exames, o Papa proclamou a heroicidade das virtudes de Gabriel. Três anos depois foi declarado Bem-aventurado e a 12 de maio de 1918, o Santo Padre colocou a corôa dos Santos sobre a fronte do fiel imitador de São Luís Gonzaga, o amável e generoso Passionista São Gabriel de L’ Adolorata.

II – DEVOÇÃO E VIRTUDE PRÓPRIAS

Percorrendo a vida tão simples, quase banal, de São Gabriel, ficamos admirados de não encontrar nela qualquer cousa que o eleve acima de seus colegas de estudo e de hábito.

É o jovem sério e estudioso, procurando agradar a Deus e aos seus colegas, sem fazer nada que saísse do quadro da vida comum. De fato, assim é, porém, é preciso re-dizer muitas vezes esta grande verdade: a santidade não consiste em fazer muitas e grandes cousas, mas sim, em fazer bem o que devemos fazer. Exteriormente, São Gabriel, como aliás Santa Teresinha e muitos outros santos, nada fizeram de extraordinário; contentaram-se, como o Salvador, em fazer bem todas as cousas: omnia bene fecit. Se, exteriormente, nada fez de extraordinário, interiormente, tudo era extraordinário pelo amor, pelo esfôrço, pela pureza de vida e de intenções; é ali que está o segredo da sua santidade.

Para Deus, a ação exterior não tem outro valor, senão o de concordar com a sua divina vontade; o que valoriza e eleva esta ação é a intenção, é o amor com que é feita.

* * *

Em São Gabriel dois pontos se destacam: a sua devoção tema e compadecida para com as dores da Virgem Santa e a prática da caridade fraterna. A Virgem das Dores era a sua predileta.

Foi aos pés da Virgem dolorosa que havia desabrochado a sua vocação, e foi com a sua imagem apertada ao peito que exalou o último suspiro. O seu lema, para estimular-se à prática da virtude, era: – Que é que não se faria para uma tal mãe?

E para agradar a Virgem das Dores, para consolá-la e reparar os ultrajes que recebe da parte dos pecadores, Gabriel acumulava os sacrifícios, mortificava-se, interdizia-se as mais legítimas inclinações da natureza, querendo só viver aos pés da sua querida Mãe desolada.

Cada noite, depositava aos pés de Maria um ramalhete admirável de mortificação no sentar-se, ao ficar em pé, no comer, no beber, no repouso e no trabalho, mortificação dos sentidos, em particular dos olhos, que mantinha sempre em perfeita modéstia.

* * *

A sua virtude predileta era a caridade fraterna.

Esta virtude, diz o seu diretor espiritual, imprimia o caráter distintivo na santidade do jovem . Era ele amável, carinhoso, alegre, esquecendo-se a si mesmo para agradar aos outros.

Nenhuma parcialidade, nem singularidade se manifestava nesta caridade; todos possuíam o seu coração, e cada qual o possuía todo. Entre os seus amigos não havia primeiro nem segundo; cada qual ocupava o primeiro lugar. A todos escusava, de todos se compadecia, de todos se lembrava.

Suspeitando que um irmão estava sobrecarregado de serviço, prestes corria a ele para ajudá-lo.

Ao precisar um religioso, de qualquer cousa e receando pedi-la ao Superior, lá ia Gabriel prestar-lhe este serviço, correndo depois alegre para o companheiro, dando-lhe a notícia que tudo estava alcançado. Parecia viver só para prevenir, adivinhar e interpretar os desejos de seus irmãos, estando sempre a espreitar com isto, as necessidades alheias, para tornar-se útil aos outros.

Com modos amáveis, intrometia-se nos trabalhos dos outros, para suavizar-lhes o cargo; voava a toda parte onde alguém carecia de auxílio, e sempre com o sorriso no semblante e com tal prontidão de ânimo, que até se sentia agradecido quando o deixavam ajudar. Com estes atos contínuos de caridade Gabriel acumulava os sacrifícios para oferecê-los, a sua querida Mãe das Dores, e se tornou tão querido de Deus, como o era de seus companheiros.

III – CONCLUSÃO

Tal é a vida simples deste jovem religioso, êmulo de Santa Teresinha, com quem revelou possuir tantos traços de semelhança, e cuja doutrina da santa infância praticava, antes que a santinha de Lisieux a promulgasse em sua extraordinária Auto-biografia.

Recolhamos da vida de São Gabriel, os dois traços característicos de sua santidade: a devoção à Virgem dolorosa e a virtude da caridade para com o próximo. Cada qual deve seguir o convite e a orientação da graça em sua devoção, como cada religioso deve adotar e desenvolver em si a devoção de seu Instituto. São Gabriel, como Passionista, cultivava a devoção a Jesus crucificado, e à Mãe das Dores. Outros Institutos escolhem outras devoções, que combinem com o seu espírito e o seu apostolado Pouco importa o nome; não é tal ou tal devoção que santifica, é o modo amoroso de pô-la em prática.

Quanto à virtude característica de São Gabriel, esta deve ser adotada por todos aqueles que pretendem amar a Deus e conquistar a perfeição, pois é a virtude básica de toda a perfeição; é o grande mandamento de Deus: Amarem-se uns aos outros. Mandatum novum do vobis: ut diligatis invicem. (João XIII. 3 4).  


Fonte: O Evangelho das Festas Litúrgicas e dos Santos mais populares. 2ª Edição: Manhumirim: O Lutador, 1952. pp. 111-116. (saiba mais sobre a obra e as postagens)

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