Capítulo IX – Díz(imo) a quem dás que te direi quem és [O Dízimo]

A verdade nada mais é do que o obvio.

E por falar em sacerdócio, tratemos agora de uma questão a ele unida, da qual pouco ou nada se sabe, mas que se tornou o ponto central da pregação de muitos, especialmente os ligados ao segmento da “teologia da pros­peridade”. Quem quiser aprofundá-la aconselhamos ir à fonte principal aqui uti­lizada, pois o que será dito não passará de uma sucinta exposição deste vídeo[1]. E tudo se resume a um fato óbvio, o fato de nenhum pastor ou seita protestante poder cobrar o dízimo.

Direto ao assunto

O termo dízimo se refere à “décima parte” destinada a Deus do que ganha­mos (cf. Ex XVI, 32-36; XXIX, 38ss; Lev V, 11, entre outros), em reconheci­mento e gratidão por tudo o que dele recebemos, a começar pela vida, e ainda como prova da confiança e do abandono à Providência divina. Como consequ­ência, o dízimo serve para não nos apegar ao terreno, material e passageiro, con­siderando que somos cidadãos do céu. Já no Antigo Testamento Deus estipulou quem possuiria autoridade para cobrar o dízimo, e estes seriam os sacerdotes e os levitas. Os sacerdotes eram os responsáveis pelo templo e pelos sacrifícios, e os levitas, seus auxiliares.

Em resumo, o dízimo somente poderia ser cobrado se existisse um templo (lugar de oração e culto). Mas o templo existia para que nele fosse feito sacri­fícios (de animais) para cultuar, agradecer e obter de Deus o perdão (expiação) pelos pecados do povo. E somente poderiam existir sacrifícios se houvesse um altar (não uma mesa para ceia) e um sacerdote para realizá-los[2]. De acordo com essas leis, pelo fato de só existir um templo, o de Jerusalém, somente em função dele se cobravam dízimos. Nenhuma Sinagoga (lugar de reunião para a pregação da Palavra e o ensino da Lei) tinha o direito de cobrar, pois ali estavam os Doutores da Lei, não os Sacerdotes, por isso jamais se encontrará na Bíblia a cobrança de dízimo pela pregação da palavra de Deus. Os Profetas, por exemplo, jamais o cobraram. Cristo, ao definir a missão de seus discípulos foi de clareza insofismável: “E, pondo-vos a caminho, pregai, dizendo: Está próximo o reino dos céus… Dai de graça o que de graça recebestes” (Mt X, 5-8).

Mas dirá alguém: “acaso o operário não é digno de seu salário?”. Ao que res­pondemos: sim; todo (bom) operário é digno de seu salário. O que trabalha deve receber, e isto sempre o ensinou São Paulo e a Igreja. O que nunca, a Bíblia e Igreja ensinaram é que salário seja igual a dízimo, que não pode ser cobrado fora de um templo onde se tenha um altar e um sacerdote para se realizar um sacrifício. Uma coisa sempre foi, é, e será completamente diferente da outra. As afirmações dos pastores e obreiros têm por base a maliciosa de­turpação das Escrituras, o que não é de se admirar no protestantismo.

Então, vejamos.

O suposto direito que os protestantes teriam de cobrar e dar o dízimo su­postamente teria respaldo na primeira carta de S. Paulo a Timóteo (V, 18), em que cita o Deuteronômio (XXV, 4), e os Evangelhos (Mt X, 10 e Lc X, 7): “O operário é digno de sua paga”. Isto por si será suficiente a enganadores e engana­dos, mas, o que os últimos não sabem e os primeiros “… têm raiva de quem sabe” é que curiosamente paga, salário, soldo, na Bíblia (e fora dela), não são sinônimos de dízimo, muito pelo contrário. Voltemos ao mote protestante, então, e per­guntemos: “onde está na Bíblia” que o operário é digno do seu dízimo? Se esta fosse a interpretação correta o dízimo seria algo a ser destinado por direito ao operário (que por coincidência neste caso não será ninguém menos que o pastor) pela cobrança da pregação, o que jamais aconteceu em toda a história de Israel. Cristo disse “dai de graça…”. Disse também que quando saíssem para pregar a Boa Nova do reino “… em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei o que se vos puser diante…” (Lc X, 7s), ou seja, não pedir, mas receber gratui­tamente o que será dado. Por quê? porque o operário é digno de um salário que não necessariamente é dinheiro, mas condições de sobrevivência, como se deu na vida dos santos, que nunca cobraram por sua dedicação sobre-humana, e que por ve­zes os conduzia ao martírio, mas sempre tiveram o necessário para sobreviver e pregar o Evangelho, curar e fazer (autênticos) milagres, e principalmente con­verter e salvar almas. Um salário cobrado, portanto, para a pregação e adminis­tração dos sacramentos etc, porque esse operário dependerá desse trabalho, que é um trabalho como qualquer outro, porém superior. Mas daí, entre esse salário e o dízimo há uma distância estrelar. Em todo o contexto fica claro que não se fala em dízimo (a décima parte) como sinônimo de pagamento pela pregação ou outra atividade do operário, ain­da mais de qualquer operário.

No Antigo Testamento há três tipos de dízimos como nos explica o autor do vídeo, nenhum destinado aos “operários da Pala­vra”: um se dirigia aos sacerdotes e levitas para a manutenção do templo e de seus servidores, outro para ser consumido na cidade de Jerusalém onde estava o templo, porque ali acorria gente de várias regiões, e o outro para os pobres e necessitados.

Daí a queixa de Deus através do profeta Malaquias (III, 5s. 10):

Então aproximar-me-ei de vós para exercer o juízo, e serei uma testemunha pronta contra os feiticeiros, e contra os adúlteros, e con­tra os perjuros, e contra os que defraudam o salário do trabalhador, as viúvas e os órfãos, e oprimem os estrangeiros, e não me temem, diz o Senhor dos exércitos.

Desde os dias de vossos pais vos apartastes das minhas leis, e não as guardastes. Voltai para mim, e eu me voltarei para vós, diz o Senhor dos exércitos. (…) Levai todos os vossos dízimos ao (meu) celeiro, e haja alimento na minha casa…;

Deixando claro com isso que é “ao (meu) celeiro”, à “minha casa”, isto é, ao templo (onde eram feitos os sacrifícios no altar pelo sacerdote) que o dízimo de­veria ser destinado, distinguindo ainda este último do “salário do trabalhador”.

No Novo Testamento os Evangelhos (Mt XVII, 23s; XXIII, 23; Lc XVIII, 9-12) nos trazem o contexto do dízimo (ou tributo) em nítida associação com o templo: lugar de sacrifício. As ofertas das que S. Paulo faz menção em Fil IV, 15-18 e S. João em 3 Jo 5-8, não têm relação alguma com o dízimo, mas se tratam das mesmas ofertas a que Nosso Senhor se refere em Mt X, 10 e Lc X, 7; porém, é na epístola (carta) aos Hebreus que S. Paulo, para evitar posteriores distorções como as que os pastores e intérpretes da Bíblia fariam, ensinará de modo infalível (portan­to, dogmático): “E certamente os que dentre os filhos de Levi receberam o sacer­dócio, têm ordem segundo a lei de receber os dízimos do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que eles tenham saído também do sangue de Abraão” (VII, 5).

Quem eram “os filhos de Levi”? Membros de uma das doze tribos de Israel oriunda de Levi, um dos doze filhos de Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão[3]. Esta tribo, que passou a ser denominada como a dos Levitas foi escolhida e consagrada para ser uma tribo de sacerdotes. Dela saiu Aarão, irmão de Moisés e tantos personagens cuja função, entre outras, era a de receber o dí­zimo para os serviços do templo e necessidade do povo. Daí o Evangelho dizer que “… os que recebiam a didracma” (Mt XVII, 23), ou seja, o dízimo ou tributo para o templo (não o salário para os operários), é que eram os responsáveis por seu recolhimento. E o próprio Cristo deu o exemplo. Como detalharemos melhor abaixo, somente a Igreja manteve nos altares de seus templos o sacrifício pelas mãos dos sacerdotes legitimamente constituí­dos[4], os únicos, portanto, que permaneceram com o direito de cobrar o dízimo. De onde se conclui que:

  1. a) todo dízimo cobrado por todas as seitas protestantes é antibíblico;
  2. b) assim sendo, todo dízimo cobrado em seitas protestantes por pastores ou qualquer outro auxiliar é fraudulento e perdulário;
  3. c) assim sendo, nenhum pastor jamais poderia cobrar o dízimo de nenhum membro em nenhuma seita, sendo esta fraude uma grave ofensa a Deus, porque injusto e abusivo.

Algumas pessoas consideram ter retorno com o dízimo pago em sua seita, que o cobra sob pretexto de manutenção do “templo” (sem altar? sem sacerdote? sem sacrifício?) e das obras da igreja. Havendo boa intenção por parte do mem­bro poderia até se pensar em uma recompensa divina, ainda que nos mostre o ditado que de boas intenções também o inferno está cheio. Considerando a sabedoria popular, cabe a pergunta: agradaria a Deus se, mesmo levados por boas intenções, estivéssemos em uma igreja que não fosse a Sua, contribuindo com obras que não fossem as Suas, confiando tais contribuições a homens que não fossem os Seus, tendo como resultado final a promoção de heresias que a tantos conduzirão à desgraça eterna[5]? Não custa lembrar que “quem não é comigo, é contra mim; e quem não junta comigo, desperdiça[6].

Talvez seja penoso àqueles que há muito dedicam sua vida ao erro e à here­sia pensar estes assuntos, especialmente se já tiver contribuído um bocado com obras e obreiros, se já possuir um retorno material que pensem ser recom­pensa divina ou se neste erro estiver familiares, parentes e amigos envolvidos. Tais motivos, especialmente os últimos, ao contrário do que se imagina deveriam apontar mais que urgente à porta da saída, como o demonstrou de forma exem­plar o cobrador de impostos Zaqueu[7], pois “… que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt XVI, 26)[8].

Concluo com uma reflexão que além de refletir o verdadei­ro pensamento da Igreja reflete ainda o verdadeiro ensinamento de Cristo. Ela vem de um papa que foi santo, recolhida por um monge que também o foi. Ao comentar o Evangelho de S. Lucas em seu décimo capítulo, versos de 5 a 12, que toca diretamente a este tema, São Gregório Magno (540-604), recolhido por S. Tomás de Aquino (1225?-1274), ensina:

Os alimentos que sustentam o obreiro são já uma parte de seu salário, de sorte que aqui se inicie a graça do trabalho da pregação, que se completa ali com a visão da verdade. No que deve conside­rar-se que se oferecem dois prêmios a nosso trabalho: um nesta vida, que nos sustenta no trabalho; outro na pátria, que nos remunera na ressur­reição. A recompensa que nesta vida se recebe deve alentar-nos para merecer com mais segurança a outra. O verdadeiro pregador não deve pregar com o fim de receber a recompensa desta vida, mas receber recompensa para poder pregar. Todo o que prega somente com o fim do louvor ou da recompensa deste mundo, se priva da do céu. (San Gregorio in Evang. hom. 17. Catena Áurea – http://hjg.com.ar/catena/c0.html)[9]


NOTAS:

[1] https://www.mixcloud.com/carlos-ramalhete/programa-antigo-porque-pastores-protestantes-n%C3%A3o-t%C3%AAm-o-direito-de-cobrar-o-d%C3%ADzimo-pela-b%C3%ADblia/. Este novo link, ao contrário, do anterior, é o oficial, e nos foi gentilmente fornecido pelo autor, o prof. Carlos Ramalhete após conhecimento desta publicação, pelo qual sou grato. No ensejo, comunico, por indicação do mesmo, o link de outros áudios do prof. Ramalhete para os leitores: https://www.mixcloud.com/carlos-ramalhete/, também encontrados na página web www.carlosramalhete.com.br.

[2] Como exposto no capítulo anterior.

[3] Gên XXXII, 28.

[4] Ramalhete nos recorda que os próprios judeus não podendo mais realizar os seus sacrifícios devido a destruição do segundo e último templo (70 d.C), nunca mais cobraram o dízimo, mesmo man­tendo as Sinagogas e a instrução do povo (pregação); o que se verifica também pela ocasião da destruição do primeiro (cf. Sal L, 20s e Dan III, 37s).

[5] Cf. Lc XIII, 23-28.

[6] Mt XII, 30.

[7] Cf. Lc XIX, 1-10.

[8] A este propósito, esclarecedora a revelação feita por Jesus à Santa Brígida (As Profecias e Revelações de Santa Brígida da Suécia), reconhecida pelo beato papa Pio IX. Nelas, Cristo explica que por justiça e misericórdia permite que muitos dos condenados possuam nesta vida bens materiais, poder e status, que apesar de aparentar bênçãos não passam de bondade divina, pois Ele sabe que por toda a eter­nidade padecerão sofrimentos inimagináveis no inferno. Não afirmo com isso que todos os protestantes se encaixem nesta revelação, mas há que examinar as consciências, especialmente à luz das Escrituras que dizem: “… E, ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada (disto) me aproveitaria” (1 Cor XIII, 1ss), lembrando, como bem observou recentemente Bento XVI, que a Caridade só se dá na Verdade.

[9] “Catena áurea” era uma compilação feita na Idade Média de escritos de Padres da Igreja (Pa­trística) quando estes expunham suas interpretações sobre os Evangelhos em forma de comentários. Atra­vés destes escritos a Igreja foi definindo sua doutrina, ao contrapor o que um e outro escreviam, verificar se não havia contradições com as Sagradas Escrituras ou entre si. Alguns homens e mulheres receberam o título de Doutor(a) da Igreja após sua obra ser exaustivamente estudada e se verificar não conter erros contra a Fé, podendo assim ser ensinada a toda a Igreja. Aqui temos dois exemplos de doutores. Juntos somam hoje 35, dos quais S. Tomás é considerado o maior. A mais famosa “Catena” foi a que ele compilou (séc. XIII), e de onde foi retirado o trecho acima (trad. livre).

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